Um dia na pele de
O sábado de uma operadora de mergulho
Você é a instrutora-chefe de uma operadora de mergulho pequena, numa ilha do litoral. A base fica à beira do píer: recepção, sala de aula, sala de equipamentos e o barco atracado. Neste sábado de alta temporada, o barco sai às 13h30 com doze mergulhadores para o naufrágio, e antes disso quatro coisas pedem você. Você decide a ordem.
Cada uma está num canto da base. Andar de uma ponta à outra da varanda leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
O mar decide metade do dia; a outra metade é sua.
Profissões com um dia assim: Instrutor de Mergulho
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O sábado de uma operadora de mergulho: o dia por escrito
Você é a instrutora-chefe de uma operadora de mergulho pequena, numa ilha do litoral. A base fica à beira do píer: recepção, sala de aula, sala de equipamentos e o barco atracado. Neste sábado de alta temporada, o barco sai às 13h30 com doze mergulhadores para o naufrágio, e antes disso quatro coisas pedem você. Você decide a ordem.
Cada uma está num canto da base. Andar de uma ponta à outra da varanda leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sala de equipamentos: A mistura que não desce até o fundo
Metade dos mergulhadores de hoje usa nitrox, ar com mais oxigênio, que deixa ficar mais tempo no fundo. Mas oxigênio demais vira veneno abaixo de certa profundidade: quanto mais rica a mistura, mais raso é o limite dela.
O compressor encheu os cilindros de madrugada. A etiqueta diz o que se pediu; o analisador diz o que entrou. O que vale é o analisador.
Ache os cilindros que não podem descer até a profundidade do mergulho planejado. São esses três: o do Henrique e o do Diogo, com 36%, só descem até 28 m, e o naufrágio está a 30. O da Carol, com 40%, para em 25 m, e o paredão é de 27. A Marina, com 34%, chega a 31 m: passa por um metro. O Fábio, com 36% no paredão de 27, também. Cada tentativa errada custa 6 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você conferiu antes das 11h. O compressor ainda estava ligado e o técnico ainda estava na base. Recarregar levava quarenta minutos e cabia antes do barco.
- Entre 11h e 13h: Você conferiu depois das 11h. O técnico do compressor já tinha ido almoçar na vila. Os cilindros que não serviam iam ter de ser trocados por outros, não recarregados.
- Depois das 13h: Os cilindros ficaram para depois das 13h. O mestre do barco começou a embarcar os cilindros às 13h, pela etiqueta, como faz todo sábado. O que quer que tenha sido conferido depois, foi conferido com o barco já carregado.
Píer: O sul que entra às três
O Seu Valdir, mestre do barco há vinte anos, olha o céu e o celular ao mesmo tempo. A previsão é de vento sul a partir das 15h. O naufrágio fica em mar aberto, quarenta minutos de barco; o recife fica na enseada, protegido, a quinze.
Os doze pagaram pelo naufrágio. Quatro deles vieram de São Paulo só para isso e voltam amanhã cedo.
- Manter o naufrágio. O barco sai às 13h30 para o naufrágio. A descida é limpa e a visibilidade, de quinze metros. Na volta, o sul entra antes da hora: quarenta minutos de onda de través, três pessoas enjoadas no convés e o Seu Valdir calado no leme.
- Trocar para o recife da enseada. Você explica no briefing. Oito aceitam; os quatro de São Paulo pedem a diferença de volta, R$ 180 cada, e um deles diz que vai escrever na avaliação da operadora. No recife, a água fica parada e aparece uma tartaruga.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi ao píer antes das 9h. Os mergulhadores ainda não tinham chegado. Qualquer mudança de plano podia ser contada com calma, no briefing, e não no cais.
- Entre 9h e 11h: Você foi ao píer depois das 9h. Os doze já estavam na base e alguém já tinha visto a previsão no celular. A pergunta "vai ter naufrágio?" chegou antes de você.
- Depois das 11h: O píer ficou para depois das 11h. O Seu Valdir abasteceu o barco para a rota que achou melhor e foi almoçar. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido em cima do que ele já tinha preparado.
Recepção: Um sim na pergunta sete
A Renata veio em lua de mel e marcou o batismo, o primeiro mergulho da vida, para hoje à tarde. Na ficha médica, na pergunta sobre asma, ela marcou sim. Diz que é leve, que não tem crise desde criança, e que a bombinha está no hotel "por via das dúvidas".
A regra da ficha é clara: com um sim, só desce com liberação de um médico. O posto de saúde da ilha abre até o meio-dia, e o marido já pagou os dois batismos.
- Oferecer snorkel hoje e batismo com atestado. A Renata ouve, olha para o marido e aceita o snorkel. Ele faz o batismo sozinho, ela fica boiando acima dele. No fim da tarde ela pergunta se o atestado pode ser do médico dela, por mensagem, para tentar na segunda.
- Levar a Renata ao posto agora. O instrutor auxiliar leva a Renata de bugue até o posto. Fila de uma hora e meia, consulta de dez minutos, e o médico libera com uma condição: profundidade até seis metros e a bombinha no barco. Ela volta ao meio-dia com o papel na mão.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h30: Você foi à recepção antes das 9h30. A Renata ainda estava preenchendo o resto da ficha. Dava para conversar com ela antes de o marido chegar com as nadadeiras alugadas.
- Entre 9h30 e 11h30: Você foi à recepção depois das 9h30. A Renata estava sentada com a ficha no colo havia uma hora. A recepcionista já tinha dito a ela "acho que não vai dar", sem ninguém ter decidido nada.
- Depois das 11h30: A recepção ficou para depois das 11h30. O posto de saúde da ilha estava para fechar e o casal tinha ido almoçar na praia, sem saber o que acontecia à tarde. O que quer que tenha sido decidido depois, foi contado a eles com o barco quase saindo.
Sala de aula: Tirar a máscara debaixo d'água
O Lucas, 15 anos, está no curso básico. Ontem, na água rasa, travou no exercício de tirar e recolocar a máscara: subiu de uma vez, tossindo. Hoje seria o primeiro mergulho dele no mar, no barco das 13h30. Sem esse exercício feito, ele não pode ir.
O pai está na sala de aula, de braços cruzados: pagou o pacote, voltam para casa na segunda. O Lucas está olhando para o chão.
- Refazer o exercício na praia agora. Vocês vão para a água rasa da praia, um metro e meio. Na quarta tentativa, o Lucas tira a máscara, sopra pelo nariz, recoloca. Sobe e não diz nada. O pai filmou do raso as três primeiras tentativas.
- Adiar o mar para amanhã e conversar com o Lucas. Você pede para falar com o Lucas sozinho. Ele conta que tem medo do nariz encher de água desde a natação, aos oito anos. O exercício fica para amanhã cedo, com o mar mais calmo. O pai paga a diária extra do hotel e diz que vai reclamar na agência.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à sala de aula antes das 10h. A maré ainda estava baixa e a água da praia, parada. Qualquer caminho começava sem relógio do barco em cima do Lucas.
- Entre 10h e 12h: Você foi à sala de aula depois das 10h. O pai já tinha perguntado duas vezes na recepção se o filho ia no barco. O Lucas ouviu as duas.
- Depois das 12h: A sala de aula ficou para depois do meio-dia. O Lucas passou a manhã sentado na sala, de roupa de neoprene, vendo os outros se arrumarem. O que quer que tenha sido decidido depois, ele soube que tinha ficado por último.
Copa: Café, e a ilha vista da copa
O divemaster e o rapaz do compressor dividem uma tapioca na bancada.
“…o compressor tá misturando torto desde que trocaram a válvula. Eu falei na quinta. Ninguém analisou de novo.”
Você não perguntou nada. Saiu sabendo que a madrugada de hoje não foi a primeira, e quinze minutos mais tarde.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …ele encheu tudo de madrugada e foi dormir. Ninguém passou o analisador ainda.
- …o Seu Valdir tá olhando o céu desde as sete. Quando ele fica quieto assim, é vento.
- …a moça da lua de mel tá na recepção com a ficha no colo. Parece que marcou alguma coisa.
- …o pai do garoto do curso perguntou de novo se ele vai no barco.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Trocar para o recife da enseada” e “Refazer o exercício na praia agora”: O Lucas fez o primeiro mergulho no mar no recife da enseada, a doze metros, com água parada. Na subida, ele tirou a máscara na superfície sem ninguém pedir, só para ver se conseguia.
- Se você escolheu “Manter o naufrágio” e “Refazer o exercício na praia agora”: O Lucas foi ao naufrágio no primeiro mergulho de mar da vida dele. Desceu bem. Na volta, com o sul entrando, foi um dos três enjoados no convés, e o pai segurou a cabeça dele os quarenta minutos.
- Se você escolheu “Trocar para o recife da enseada” e “Levar a Renata ao posto agora”: Com o barco no recife, os seis metros que o médico liberou cabiam no mesmo mergulho dos outros. A Renata e o marido desceram juntos e viram a mesma tartaruga.
- Se você escolheu “Manter o naufrágio” e “Levar a Renata ao posto agora”: A Renata voltou do posto liberada até seis metros, e o barco ia para um naufrágio de trinta. O batismo dela foi feito numa parada rasa no caminho, com um instrutor só para ela, enquanto os outros onze esperavam no barco.
Como o dia termina
Você foi para os cilindros primeiro.
Havia um vento chegando, uma noiva com uma ficha e um garoto travado, e você foi para a sala de equipamentos ler o analisador. Passou 55 min comparando etiqueta com análise e mistura com profundidade.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que ninguém via e que só apareceria a trinta metros. Segurança de mergulho é isso: o trabalho que dá certo quando nada acontece.
Você foi para o mar primeiro.
Você começou pelo píer, com o mestre do barco e a previsão. Passou 30 min entre o mergulho que os clientes pagaram e o vento que vinha às três.
Conduzir no mar é isso: o plano do dia depende de uma coisa que não negocia, e quem decide responde pelos doze que estão no barco.
Você foi para a ficha da Renata primeiro.
Você começou pela recepção, com uma cliente que queria mergulhar e uma regra que dizia que ainda não. Passou 35 min entre a lua de mel dela e o sim na pergunta sete.
Receber visitante é isso: dizer não de um jeito que a pessoa ainda queira voltar, ou achar o caminho para o sim que a regra permite.
Você foi para o aluno primeiro.
Você começou pela sala de aula, com um garoto que tinha travado ontem e um pai de braços cruzados. Passou 45 min com uma habilidade de trinta segundos que ele ainda não tinha.
Ensinar mergulho é isso: o aluno só vai para o fundo quando o corpo dele aceita, e o calendário do pacote não muda o corpo.
As quatro portas do mergulho
Trabalhar com mergulho não é só estar na água: são quatro trabalhos, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo amor ao mar.
- Instrução. Levar alguém do medo à habilidade, no tempo do corpo dele e não do pacote.
- Condução no mar. Escolher onde e quando entrar na água, com um mar que não negocia.
- Segurança e equipamento. Conferir o que ninguém vê, para que nada aconteça lá embaixo.
- Atendimento ao visitante. Cuidar de quem chega querendo uma experiência, dentro das regras que protegem essa pessoa.