Um dia na pele de
O escritório de direito digital
Você advoga num escritório pequeno, com doze pessoas, que só atende empresas de tecnologia: startups, empresas de software, plataformas. Contratos, dados pessoais e, quando dá errado, arbitragem. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
As peças estão na sua tela, mas as decisões estão na sala de reunião, na mesa da sócia, na bancada dos estagiários. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Proteger o cliente sem travar o negócio que ele veio fechar.
Profissões com um dia assim: Advogado de Contratos Tech · Advogado de Arbitragem
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O escritório de direito digital: o dia por escrito
Você advoga num escritório pequeno, com doze pessoas, que só atende empresas de tecnologia: startups, empresas de software, plataformas. Contratos, dados pessoais e, quando dá errado, arbitragem. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
As peças estão na sua tela, mas as decisões estão na sala de reunião, na mesa da sócia, na bancada dos estagiários. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua mesa: O prazo que a agenda empurrou
Hoje é dia 15. O escritório tem cinco arbitragens abertas, e cada peça tem um prazo. Pelos termos de arbitragem de todas elas, o prazo corre em dias corridos, contados do dia seguinte ao recebimento: recebido no dia 1 com 10 dias, vence no dia 11.
Quem anota a agenda é o estagiário. Você confere uma vez por semana. É hoje.
Ache o prazo que vence antes da data anotada na agenda. É esse. Orbe Pay: recebido em 30/09, 15 dias corridos, vence hoje, dia 15, até 23h59 no sistema da câmara. A agenda diz 21/10: o estagiário contou dias úteis, como no fórum. É a manifestação sobre a perícia, a peça que decide quanto o cliente vai pagar. Cada tentativa errada custa 6 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de chamar o assistente técnico do cliente, que leu o laudo com você à tarde. A manifestação foi protocolada às 18h, revisada.
- Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. A manifestação saiu em quatro horas, sem a leitura do assistente técnico, que estava em outra reunião. Foi protocolada às 23h40, com dois parágrafos que você teria escrito diferente.
- Depois das 15h: A agenda ficou para depois das 15h. Às 15h o assistente técnico do cliente embarcou para um congresso. O que quer que tenha sido feito depois, a manifestação sobre a perícia ficou sem ele, e o cliente perguntou por quê.
Sala de reunião: O contrato que a fundadora quer assinar hoje
A Marina fundou uma startup de software antifraude com 14 pessoas. Um banco grande quer contratar, e o contrato do banco chegou ontem: responsabilidade sem limite por qualquer falha e todo o código feito no projeto passa a ser do banco. A Marina quer assinar hoje. O dinheiro desse contrato paga a empresa por um ano.
O banco disse, por e-mail, que "o contrato é padrão".
- Pedir limite de responsabilidade e licença do código. Você manda ao banco duas mudanças: responsabilidade limitada a doze meses de contrato e código licenciado, não entregue. O jurídico do banco responde que vai analisar. A Marina sai da sala sem saber quando assina, e pergunta se o banco pode desistir.
- Assinar e negociar só o código. Você aceita a responsabilidade sem limite e briga só pelo código: o que já existia antes do projeto continua da startup. O banco topa em uma ligação. A Marina assina na sexta. Uma falha grande do software, se acontecer, pode custar mais do que a empresa vale.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você entrou antes das 10h30. A Marina ainda não tinha falado com os sócios. A conversa foi sobre o contrato, não sobre por que o jurídico demorou.
- Entre 10h30 e 13h: Você entrou depois das 10h30. A Marina já tinha dito ao banco que assinaria "até amanhã". Você entrou para discutir um contrato com prazo já prometido.
- Depois das 13h: A sala de reunião ficou para depois das 13h. A Marina esperou a manhã e ligou para outro advogado, amigo de um sócio, que disse que "contrato de banco é assim mesmo". O que quer que tenha sido decidido depois, já havia uma segunda opinião na mesa.
Mesa da sócia: Os dados que saíram
Um cliente do escritório, uma plataforma de agendamento de clínicas, descobriu ontem à noite que uma base com nome, telefone e especialidade médica de 38 mil pacientes ficou aberta na internet por dez dias. A Helena, sócia, quer saber o que dizer à autoridade de proteção de dados e aos pacientes.
A perícia diz que só sabe na segunda se alguém baixou a base.
- Comunicar hoje, com o que se sabe. Você redige a comunicação à autoridade e aos pacientes ainda hoje: o que ficou aberto, por quanto tempo, e que a perícia não terminou. O cliente aprova, contrariado. Na segunda, a perícia confirma que ninguém baixou a base, e o cliente pergunta se precisava ter avisado 38 mil pessoas.
- Esperar a perícia de segunda. Você prepara as duas versões da comunicação e espera a perícia, dentro do prazo. Na segunda, ela confirma que ninguém baixou a base. O aviso sai mais curto e mais calmo. Um paciente, que tinha achado o link aberto no fim de semana, já tinha postado sobre isso.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à mesa da sócia antes das 11h. A Helena ainda não tinha falado com o cliente. A orientação chegou a ele antes de ele decidir sozinho o que dizer.
- Entre 11h e 14h: Você foi à mesa da sócia depois das 11h. O cliente já tinha mandado um e-mail aos pacientes dizendo que "nenhum dado foi comprometido", antes de saber. Você começou corrigindo uma frase que já tinha saído.
- Depois das 14h: A mesa da sócia ficou para depois das 14h. A Helena escreveu a primeira orientação ao cliente sozinha, entre duas reuniões. O que quer que tenha sido decidido depois, foi em cima de um texto que você não tinha lido.
Bancada dos estagiários: A licença no meio da venda
Um cliente do escritório está vendendo a empresa de software para um grupo maior. Na revisão para a venda, o Caio, estagiário, achou na lista de bibliotecas do produto uma de licença aberta que obriga a publicar o código de quem a usa num serviço online. O comprador ainda não sabe.
O time técnico do cliente diz que troca a biblioteca em 48 horas. O relatório para o comprador vence amanhã.
- Pôr no relatório agora, como está. A licença entra no relatório como risco aberto. O comprador pede um desconto no preço até a troca ser comprovada. O cliente acha que o escritório trabalhou contra ele. A venda segue, com uma cláusula nova e um valor menor.
- Pedir 48 horas e reportar já trocada. Você pede ao comprador dois dias a mais, sem dizer por quê. O time troca a biblioteca e o relatório sai com o risco descrito e resolvido. O preço não muda. O comprador anota o atraso e passa a ler os próximos relatórios linha por linha.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à bancada antes das 10h. O Caio ainda não tinha comentado com ninguém. Você ouviu a história inteira dele, com a lista aberta, antes de ela correr o escritório.
- Entre 10h e 12h30: Você foi à bancada depois das 10h. O Caio já tinha mandado a lista para o grupo do caso, onde também está o advogado do comprador. Você decidiu com a mensagem já lida por quem não devia.
- Depois das 12h30: A bancada ficou para depois do meio-dia e meia. O Caio esperou a manhã inteira e, sem resposta, perguntou à sócia no almoço. O que quer que tenha sido decidido depois, a Helena já sabia que a dúvida tinha ficado parada com você.
Copa: Café, e o jurídico visto pelo cliente
Um fundador de startup, esperando a reunião dele, está na copa ao telefone.
“…advogado é quem diz não. A gente contrata para assinar mais rápido, e ele faz o contrato voltar três vezes.”
O contrato dele voltou três vezes porque tinha uma multa que fecharia a empresa. Ele não sabe disso, ou não lembra. Quinze minutos depois, você volta para a mesa sabendo como o seu trabalho é contado do outro lado.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a fundadora do antifraude chegou cedo. Disse que quer sair daqui com o contrato assinado.
- …o Caio achou alguma coisa na lista daquela venda. Tá com cara de quem não sabe para quem contar.
- …a Helena tá no telefone com aquele cliente das clínicas desde as oito.
- …eu anoto tudo em dias úteis, igual no fórum. Fica mais organizado.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Pedir limite de responsabilidade e licença do código” e “Pôr no relatório agora, como está”: Na mesma quinta, você fez um contrato voltar ao banco e pôs um risco aberto no relatório de uma venda. Dois clientes ouviram de você algo que não queriam. Os dois voltam na semana que vem, com o mesmo advogado.
- Se você escolheu “Esperar a perícia de segunda” e “Pedir 48 horas e reportar já trocada”: Você esperou a perícia para comunicar o vazamento e pediu dois dias para o relatório da venda. Nas duas, o fato chegou inteiro, e nas duas alguém de fora soube antes do que o escritório queria.
- Se você escolheu “Assinar e negociar só o código” e “Comunicar hoje, com o que se sabe”: Você deixou uma startup assinar responsabilidade sem limite e viu, na mesma quinta, outro cliente avisar 38 mil pessoas de um vazamento. Na sexta, a Marina leu a notícia do vazamento e ligou perguntando o que acontecia com ela se fosse com o banco.
- Se você escolheu “Comunicar hoje, com o que se sabe” e “Pôr no relatório agora, como está”: Você contou cedo, nas duas: à autoridade, sobre o vazamento, e ao comprador, sobre a licença. Duas vezes o cliente teria preferido esperar. Duas vezes não houve surpresa depois.
Como o dia termina
Você foi para a agenda primeiro.
Havia uma fundadora querendo assinar, uma sócia com um vazamento e um estagiário com uma dúvida, e você abriu uma agenda que ninguém estava cobrando. Passou 1h10 contando dias no calendário.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do prazo antes de ele vencer. Em arbitragem, um prazo perdido não tem recurso, e a disputa de anos pode se decidir numa peça que não foi protocolada.
Você foi para o contrato primeiro.
Você começou pela sala de reunião, onde uma fundadora queria assinar hoje. Passou 50 min decidindo o que vale brigar e o que vale aceitar para o negócio acontecer.
Quem faz contrato de tecnologia vive essa conta: o cliente quer fechar, e o seu trabalho é dizer o que ele está assinando antes, não depois.
Você foi para o vazamento primeiro.
Você começou pela mesa da sócia: 38 mil pessoas com dados expostos e uma perícia que só responde na segunda. Passou 45 min decidindo entre avisar já e avisar certo.
Em proteção de dados, a crise tem prazo e tem público: a autoridade, o cliente e cada pessoa cujo nome estava na base.
Você foi para o Caio primeiro.
Você começou pela bancada dos estagiários, por uma linha numa lista de bibliotecas. Passou 40 min entendendo o que uma licença de software muda numa venda de empresa.
Contrato de tecnologia também é isso: o produto é feito de código de muita gente, e cada pedaço vem com as regras de quem o escreveu.
As três portas do direito digital
Direito digital não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo cliente.
- Contratos de tecnologia. Escrever o que o cliente está assinando antes de ele assinar: software, código, licenças.
- Proteção de dados. Prazos, autoridade e pessoas do outro lado, quando o dado sai de onde devia estar.
- Arbitragem. Disputas longas, fora do fórum, decididas em peças com prazo que não perdoa.