Um dia na pele de
O plantão de radiologia num hospital geral
Você é radiologista de um hospital geral em Recife, no plantão do dia: tomografia, ultrassom, raio X e os laudos que médicos de todos os andares esperam. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sala de laudos: está na tomografia, na sala de ultrassom, no quarto de um paciente. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Ver o que ninguém viu ainda, e dizer do jeito que pode ser ouvido.
Profissões com um dia assim: Radiologista · Médico Ultrassonografista · Ecocardiografista
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O plantão de radiologia num hospital geral: o dia por escrito
Você é radiologista de um hospital geral em Recife, no plantão do dia: tomografia, ultrassom, raio X e os laudos que médicos de todos os andares esperam. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sala de laudos: está na tomografia, na sala de ultrassom, no quarto de um paciente. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sala de laudos: Os achados que ninguém avisou
Durante a noite, a teleradiologia laudou os exames do hospital. O protocolo diz que achado crítico tem que ser comunicado por telefone ao médico do paciente em até 60 minutos. Críticos, pelo protocolo: hemorragia intracraniana, embolia pulmonar, pneumotórax e dissecção de aorta.
O resto, mesmo grave, vai pelo laudo normal. Antes de começar o dia, você confere a lista.
Ache os achados críticos sem comunicação em até 60 minutos. São esses três: a embolia do leito 4 sem ligação nenhuma, o pneumotórax da UTI avisado com 2h10 e a hemorragia do PS com 1h30. O nódulo, o derrame e a fratura são achados de verdade, mas vão pelo laudo: não estão na lista de críticos. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você achou antes das 9h. As ligações saíram antes da visita da manhã. Os médicos dos três pacientes souberam antes de passar no leito.
- Entre 9h e 13h: Você achou depois das 9h. A visita da manhã já tinha passado. O paciente do leito 4 só começou o tratamento da embolia depois que você ligou.
- Depois das 13h: A lista ficou para depois das 13h. Os três achados passaram a manhã no sistema sem ninguém avisado por telefone. O que quer que tenha sido feito depois, a manhã já tinha ido sem eles.
Tomografia: O contraste e o rim
O emergencista ligou para a tomografia: o Seu Antônio, 71 anos, chegou com falta de ar e dor no peito. Ele suspeita de embolia pulmonar e quer uma angiotomografia agora. A creatinina do Seu Antônio é 2,8: o rim já trabalha mal, e o contraste iodado pode piorar.
A alternativa é um ultrassom das pernas agora e a cintilografia pulmonar, que não usa contraste, amanhã às 8h.
- Fazer a angiotomografia agora, com hidratação. Ele recebe soro antes e depois, e o exame sai em 20 minutos: embolia nos dois pulmões. O tratamento começa na hora. Três dias depois, a creatinina sobe para 3,4, e a nefrologia é chamada.
- Ultrassom das pernas agora e cintilografia amanhã. O ultrassom mostra um trombo na perna esquerda, e o emergencista começa o anticoagulante com isso. A cintilografia confirma a embolia na manhã seguinte. O rim do Seu Antônio fica como estava; a noite dele passa sem a resposta inteira.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi à tomografia antes das 9h. O Seu Antônio ainda estava estável no pronto-socorro. A decisão foi tomada com tempo para os dois caminhos.
- Entre 9h e 12h: Você foi à tomografia depois das 9h. Ele já estava com oxigênio, e o emergencista tinha ligado duas vezes. Qualquer caminho começou com um paciente piorando.
- Depois das 12h: A tomografia ficou para depois do meio-dia. O emergencista não esperou e começou o anticoagulante pela suspeita, sem imagem. O que quer que tenha sido feito depois, foi para confirmar uma decisão já tomada.
Sala de ultrassom: "Está tudo bem?"
Na sala de ultrassom, a Juliana, 28 anos, grávida de 21 semanas, faz o exame morfológico. O marido ficou no carro com o filho mais velho. Na imagem do coração do bebê, você vê o que parece uma comunicação grande entre os ventrículos.
Ela olha a tela e pergunta: "Está tudo bem?" O protocolo do hospital diz que o laudo vai ao obstetra, e é ele quem conversa.
- Contar o que você viu, com cuidado. Você explica que viu uma alteração no coração, que precisa de um ecocardiograma fetal e que muitas alterações assim têm tratamento. Ela chora, pergunta muito, liga para o marido da maca. Sai com a verdade e com o pedido do exame na mão.
- Pedir o ecocardiograma fetal e deixar a conversa ao obstetra. Ela entende pelo seu tom. Pergunta duas vezes o que é, e você repete que o obstetra vai explicar com o exame na mão. A consulta com ele é em cinco dias.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi ao ultrassom antes das 10h. A agenda ainda estava no horário. Deu para olhar o coração com calma, de todos os ângulos, antes de qualquer conversa.
- Entre 10h e 14h: Você foi ao ultrassom depois das 10h. A agenda já estava uma hora atrasada, com seis gestantes na sala de espera. O exame foi feito no tempo que sobrou.
- Depois das 14h: O ultrassom ficou para depois das 14h. A Juliana passou horas na sala de espera, olhando o celular. O que quer que tenha sido dito a ela, foi dito no fim de uma tarde que ela passou com medo.
Quarto 8: A palavra no aplicativo
No quarto 8, o Dr. Paulo, clínico do Seu Jorge, te espera. O seu laudo de ontem diz na conclusão: "lesão expansiva no pâncreas, suspeita para neoplasia". A filha leu no aplicativo do hospital às 6h, antes de qualquer médico falar com ela.
O Dr. Paulo pede que a conclusão vire "lesão a esclarecer" até a biópsia: "a família não precisava ter lido isso assim".
- Manter a conclusão como está. Você explica ao Dr. Paulo por que a palavra fica: o próximo médico que abrir o laudo precisa da mesma urgência que você viu na imagem. Ele aceita, contrariado. A filha ouve a conversa da porta.
- Retificar a conclusão para "lesão a esclarecer". Você retifica a conclusão. A filha relê no aplicativo e respira. A biópsia é pedida sem a palavra "neoplasia", e o gastroenterologista que recebe o pedido pergunta por que ele não veio com prioridade.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi ao quarto 8 antes das 11h. O Dr. Paulo ainda não tinha conversado com a família. A conversa sobre o laudo veio antes da conversa sobre a doença.
- Entre 11h e 15h: Você foi ao quarto 8 depois das 11h. O Dr. Paulo já tinha conversado com a família, do jeito dele, citando o seu laudo duas vezes. Você chegou depois da conversa principal.
- Depois das 15h: O quarto 8 ficou para depois das 15h. A filha do Seu Jorge passou o dia relendo o laudo e pesquisando cada palavra. O que quer que tenha sido decidido depois, ela já tinha lido tudo o que a internet dizia sobre aquilo.
Copa: Café, e o que se fala nele
Dois técnicos de radiologia estão na copa, ainda de avental de chumbo.
“…o tomógrafo dois para às três para manutenção. Quem não fizer até lá vai para a fila do um.”
Ninguém tinha te avisado. Quinze minutos depois, você volta sabendo que a tarde tem uma máquina a menos.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a teleradiologia laudou a noite inteira e ninguém ligou pra ninguém.
- …o PS ligou de novo pedindo a angio do senhor da falta de ar.
- …a moça do morfológico das dez tá esperando sozinha.
- …a filha do quarto 8 tá no corredor com o celular na mão desde cedo.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Manter a conclusão como está” e “Contar o que você viu, com cuidado”: Você manteve a palavra "neoplasia" no laudo e contou à Juliana o que viu na tela. Naquela quarta, quem recebeu notícia difícil de você recebeu inteira, e de você.
- Se você escolheu “Retificar a conclusão para "lesão a esclarecer"” e “Pedir o ecocardiograma fetal e deixar a conversa ao obstetra”: Você suavizou a conclusão do Seu Jorge e deixou a notícia da Juliana para o obstetra. As duas famílias passaram a semana com meia informação: uma no aplicativo, outra na sala de espera.
- Se você escolheu “Fazer a angiotomografia agora, com hidratação” e “Pedir o ecocardiograma fetal e deixar a conversa ao obstetra”: A angiotomografia do Seu Antônio saiu em 20 minutos; a resposta da Juliana vai levar cinco dias. No mesmo plantão, a pressa ficou com quem estava piorando, e a espera com quem estava com medo.
- Se você escolheu “Ultrassom das pernas agora e cintilografia amanhã” e “Retificar a conclusão para "lesão a esclarecer"”: O Seu Antônio esperou a cintilografia até a manhã seguinte, e o Seu Jorge teve a biópsia pedida sem prioridade. Na quinta, dois diagnósticos que podiam ter fechado na quarta ainda estavam em andamento.
Como o dia termina
Você foi para os laudos da noite primeiro.
Havia um emergencista ligando, uma gestante na maca e um clínico esperando no quarto, e você começou pela lista do que a noite tinha visto. Passou 1h00 conferindo quem foi avisado e quando.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que estava escrito e ninguém tinha lido. Em radiologia, achar não basta: o achado só vale quando chega ao médico do paciente.
Você foi para a tomografia primeiro.
Você começou pelo paciente que podia piorar enquanto esperava. Passou 40 min pesando um rim contra uma resposta mais rápida.
Na medicina diagnóstica, o exame também tem custo: a dose, o contraste, o tempo. Às vezes, o exame que não usa contraste, da medicina nuclear, responde a mesma pergunta num tempo diferente.
Você foi para o ultrassom primeiro.
Você começou pela sala onde a paciente olha a tela junto com você. Passou 45 min com uma imagem que pedia uma conversa que o protocolo dava a outro médico.
Ultrassonografia é isso: o diagnóstico acontece na frente de quem está sendo examinado, e a cara de quem examina também é lida.
Você foi para o quarto 8 primeiro.
Você começou por um laudo seu, já assinado, que uma família leu antes da hora. Passou 35 min decidindo se a palavra certa para a imagem é a certa para quem lê.
Em radiologia, o laudo é o seu trabalho inteiro, e hoje ele é lido no celular pelo paciente, não só pelo médico.
As três portas do diagnóstico por imagem
Diagnóstico por imagem não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Radiologia. Ler tomografia, raio X e ressonância, e fazer o achado chegar a quem trata, na palavra certa.
- Ultrassonografia. Fazer o exame na frente do paciente, com a imagem e a conversa acontecendo ao mesmo tempo.
- Medicina nuclear. Diagnosticar pela função, com radiofármacos: o exame que responde o que a imagem sozinha não mostra.