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Um dia na pele de

O estúdio de design no dia da gráfica

Você é designer num estúdio de oito pessoas, num sobrado reformado. Hoje às 17h sai para a gráfica o arquivo da embalagem nova de uma torrefação de café: 20 mil pacotes. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O trabalho não fica só na sua tela: o cliente está na sala de reunião, a ilustradora no estúdio, o infográfico na parede da criação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Entregar no prazo uma peça que vai existir em 20 mil cópias.

Profissões com um dia assim: Designer Gráfico · Designer de Embalagem · Designer de Embalagens · Diretor de Arte Gráfico · +2

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O estúdio de design no dia da gráfica: o dia por escrito

Você é designer num estúdio de oito pessoas, num sobrado reformado. Hoje às 17h sai para a gráfica o arquivo da embalagem nova de uma torrefação de café: 20 mil pacotes. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O trabalho não fica só na sua tela: o cliente está na sala de reunião, a ilustradora no estúdio, o infográfico na parede da criação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: O arquivo que não volta

A gráfica pede todas as imagens com pelo menos 300 pontos por polegada no tamanho em que vão ser impressas. Uma polegada tem 2,54 cm. Abaixo disso, a imagem sai borrada, e são 20 mil pacotes.

Você abre a lista de imagens da embalagem: a largura de cada uma em pixels e a largura em que ela vai ser impressa. A imagem com menos pixels não é, necessariamente, a que vai borrar.

Ache as imagens que vão sair com menos de 300 dpi no tamanho impresso. São essas três: a foto da cafeicultora (cerca de 286 dpi), a textura de juta (254) e a assinatura do produtor (254). O ícone de moagem, com só 300 px, passa: ele é impresso com 2 cm. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 13h: Você achou antes das 13h. Deu tempo de pedir a foto original ao fotógrafo e refazer a textura. O arquivo saiu às 16h, com folga, e a gráfica não ligou de volta.
  • Entre 13h e 16h30: Você achou depois das 13h. O fotógrafo só mandou a original às 16h50. O arquivo saiu no limite, sem tempo para uma segunda olhada no resto.
  • Depois das 16h30: O arquivo ficou para depois das 16h30. O que quer que tenha sido conferido, foi conferido correndo. A gráfica recebeu o arquivo às 17h em ponto e não espera: a máquina estava reservada para as 17h15.

Sala de reunião: A embalagem igual à do concorrente

O Seu Valdir, dono da torrefação, chegou sem marcar. Põe na mesa o pacote de um café do supermercado, amarelo e preto, e diz: "Esse aqui vende. Deixa o meu parecido."

A embalagem que você desenhou é verde e creme, com a ilustração do cafezal dele. Faltam sete horas para a gráfica.

  • Fazer uma versão parecida para ele comparar. Você monta em uma hora uma versão amarela e preta, ao lado da verde. O Seu Valdir olha muito tempo para as duas e escolhe a amarela. O cafezal sai pequeno, no verso. Na prateleira, o pacote dele fica a dois palmos do concorrente.
  • Mostrar por que não copiar. Você põe os dois pacotes lado a lado numa foto de prateleira e mostra que o dele some no meio do outro. O Seu Valdir escuta, aprova a verde de cara fechada e, na saída, pede desconto na próxima peça.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você entrou antes das 10h30. Ele ainda estava tomando o café que a recepção ofereceu. A conversa foi longa, mas sem relógio apertando.
  • Entre 10h30 e 12h: Você entrou depois das 10h30. Ele esperou quase uma hora e já tinha mandado a foto do pacote do concorrente para a esposa. Entrou na conversa com a opinião dela também.
  • Depois das 12h: A reunião ficou para depois do meio-dia. Ele foi almoçar e voltou às duas, irritado com a espera. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com três horas até a gráfica.

Estúdio: A terceira rodada de ajuste

A Júlia, ilustradora freelancer, desenhou o cafezal da embalagem. O contrato dela previa duas rodadas de ajuste. O cliente pediu quatro.

Ela está no estúdio, fotografando o original para o portfólio, e diz com calma: as duas rodadas extras custam R$ 800. Sem isso, ela entrega a imagem final, mas não o arquivo aberto em camadas.

  • Pagar do caixa do estúdio. O estúdio paga os R$ 800 e a Júlia manda o arquivo aberto na hora. A margem do projeto cai pela metade. O cliente nunca soube que as rodadas extras custaram alguma coisa.
  • Repassar o custo ao cliente. Você manda ao Seu Valdir o orçamento das rodadas extras, com o contrato anexo. Ele responde só à noite: paga, mas "da próxima vez avisa antes". A Júlia manda o arquivo aberto amanhã de manhã.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao estúdio antes das 11h. A Júlia ainda estava montando a luz. Conversaram com tempo, e ela mostrou os esboços que o cliente nunca viu.
  • Entre 11h e 14h: Você foi ao estúdio depois das 11h. Ela já tinha guardado o material e conversou com a bolsa no ombro. A decisão foi tomada em pé, na porta.
  • Depois das 14h: O estúdio ficou para depois das 14h. A Júlia foi embora às duas e mandou a cobrança por e-mail, com cópia para o dono do estúdio. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido por escrito.

Sala de criação: O gráfico que pode enganar

O estúdio faz os infográficos do jornal da cidade. O de hoje mostra os focos de queimada na região: 412 no ano passado, 468 neste. A Bruna, editora do jornal, quer a página às 15h.

Com o eixo começando no zero, as duas barras ficam quase iguais. Começando em 400, a segunda fica cinco vezes maior que a primeira. A Bruna pediu "impacto".

  • Eixo começando no zero. As barras saem quase do mesmo tamanho, com os números grandes em cima. A Bruna publica, mas reclama que "ninguém vai olhar". A página tem metade da leitura da semana anterior.
  • Eixo começando em 400, com aviso. O gráfico sai dramático, com uma linha pequena dizendo que o eixo não começa no zero. A página é a mais compartilhada do mês. Um professor da universidade posta o gráfico com a legenda "é assim que se engana com número".

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi à criação antes do meio-dia. Deu tempo de mandar as duas versões para a Bruna e conversar sobre elas antes de a página fechar.
  • Entre 12h e 15h: Você foi à criação depois do meio-dia. A Bruna já tinha ligado duas vezes. O gráfico foi decidido por telefone, com ela vendo a tela pelo celular de outra pessoa.
  • Depois das 15h: A criação ficou para depois das 15h. A página fechou sem o infográfico, com uma foto de arquivo no lugar. O que quer que tenha sido desenhado depois, saiu só na versão do site, no dia seguinte.

Copa: Café, e o impresso visto da tela

O webdesigner do estúdio está na pia, falando com o estagiário.

“…gráfica é coisa do passado. Na tela, se errou, você corrige em um minuto.”

Na tela, sim. O pacote de café não tem botão de desfazer. Quinze minutos depois, você volta para a mesa pensando nos 20 mil.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a gráfica ligou de novo. Disse que às 17h a máquina não espera.
  • …o dono do café chegou com um pacote amarelo na mão. Não parecia feliz.
  • …a Júlia tá no estúdio. Disse que só sai depois de falar com você.
  • …a moça do jornal ligou. Quer o gráfico das queimadas "com impacto".

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Fazer uma versão parecida para ele comparar” e “Pagar do caixa do estúdio”: O estúdio pagou do próprio caixa as rodadas extras do cafezal, e o cafezal foi para o verso do pacote amarelo. A Júlia viu a embalagem no supermercado e perguntou se tinha sido por causa dela.
  • Se você escolheu “Mostrar por que não copiar” e “Repassar o custo ao cliente”: No mesmo dia, o Seu Valdir ouviu que a ideia dele não servia e recebeu uma cobrança que não esperava. Ele pagou e aprovou. Na semana seguinte, pediu orçamento a outro estúdio para o rótulo do café especial.
  • Se você escolheu “Fazer uma versão parecida para ele comparar” e “Eixo começando em 400, com aviso”: Na mesma terça, você deu ao cliente o pacote que imita o que vende e à editora o gráfico que chama atenção. As duas peças fizeram o que foi pedido. Nenhuma das duas era a que você teria feito sozinho.
  • Se você escolheu “Mostrar por que não copiar” e “Eixo começando no zero”: Duas vezes no mesmo dia você disse não a quem estava pagando: ao Seu Valdir e à Bruna. Os dois aprovaram o que você defendeu. Nenhum dos dois agradeceu.

Como o dia termina

Você foi para o arquivo primeiro.

Havia um cliente esperando na sala de reunião, uma ilustradora cobrando e uma editora com prazo, e você abriu a lista de imagens. Passou 1h30 fazendo conta de pixel e centímetro.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi para a parte do trabalho que, se der errado, sai impressa 20 mil vezes. Embalagem é isso: o desenho só existe depois que passa pela máquina.

Você foi para o cliente primeiro.

Você começou pela conversa em que o projeto inteiro podia mudar de cor. Passou 50 min entre o que o cliente queria e o que você achava que funcionava.

Direção de arte vive dessa sala: defender uma ideia para quem paga, sabendo que quem paga também conhece o próprio negócio.

Você foi para a ilustradora primeiro.

Você começou pela pessoa que tinha desenhado à mão o centro da embalagem. Passou 35 min decidindo quanto vale uma rodada de ajuste e quem paga por ela.

Ilustração é isso também: o desenho é a parte bonita, e o contrato, as rodadas e o arquivo aberto são o que decide se dá para viver dele.

Você foi para o gráfico primeiro.

Você começou pela peça em que o desenho muda o que as pessoas entendem de um número. Passou 40 min decidindo onde começa um eixo.

Infografia é isso: cada escolha de escala é uma afirmação, e quem lê confia que você não está escolhendo o que ele vai sentir.

As quatro portas do design gráfico

Design gráfico não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela ferramenta.

  • Embalagem e produção gráfica. Fazer o desenho sobreviver à gráfica: cor, resolução, faca, material. O erro sai em milhares de cópias.
  • Direção de arte. Defender uma ideia visual para quem paga, e ouvir o que ele sabe do próprio negócio.
  • Ilustração. Desenhar o que não existe em foto, e negociar o que esse desenho vale.
  • Infografia. Transformar número em imagem sem mudar o que o número diz.