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Um dia na pele de

A clínica de dermatologia

Você é dermatologista e sócia de uma clínica pequena: um consultório, uma sala de procedimentos, uma sala de laser e uma recepção sempre cheia. Atende psoríase, câncer de pele, acne e quem quer mudar o rosto. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está numa sala da clínica. Andar entre elas leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

A pele que adoece e a pele que se quer mudar chegam pela mesma porta.

Profissões com um dia assim: Dermatologista · Médico Dermatologista Estético

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A clínica de dermatologia: o dia por escrito

Você é dermatologista e sócia de uma clínica pequena: um consultório, uma sala de procedimentos, uma sala de laser e uma recepção sempre cheia. Atende psoríase, câncer de pele, acne e quem quer mudar o rosto. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cada uma está numa sala da clínica. Andar entre elas leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Seu consultório: Doze pintas e uma conta

O Seu Raul, 52 anos, tem pai e irmão que tiveram melanoma. Ontem a técnica fotografou as pintas dele com o dermatoscópio e deu a cada uma quatro números: assimetria (A), bordas (B), cores (C) e estruturas (D).

A conta junta os quatro num só: 1,3 × A + 0,1 × B + 0,5 × C + 0,5 × D. Acima de 5,45, a pinta é suspeita e vai para retirada. O cirurgião da clínica fecha a agenda de retiradas da semana às 15h.

Ache as pintas com resultado acima de 5,45. São cinco: ombro (7,2), perna (6,3), abdômen (5,7), rosto (5,8) e pé (5,5). A do rosto engana: é simétrica, mas tem cores e estruturas demais. A do pé passa por cinco centésimos, e a da mão, ao lado, fica em 5,4. A das costas, assimétrica, fecha só 4,6. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você conferiu antes das 11h. O cirurgião encaixou as cinco retiradas na sexta. O Seu Raul soube ainda de manhã, por telefone, e não precisou passar o fim de semana esperando.
  • Entre 11h e 15h: Você conferiu depois das 11h. O pedido chegou antes das 15h, mas a sexta já estava cheia. As retiradas ficaram para a terça seguinte.
  • Depois das 15h: O mapeamento ficou para depois das 15h. O cirurgião fechou a agenda da semana às 15h. O que quer que tenha sido pedido depois, entrou na agenda de daqui a duas semanas.

Sala de procedimentos: Só mais um pouco

A Larissa, 27 anos, está deitada na maca com uma foto no celular: os lábios de uma atriz. É o quarto preenchimento dela no ano, o segundo com você. Os lábios já estão no limite do que você considera harmônico. Ela diz que, no espelho, ainda parecem finos.

O produto está aberto na bandeja. A recepção avisou que ela pagou adiantado.

  • Fazer, com pouco volume. Você aplica menos da metade da seringa e explica por quê. Ela se olha no espelho por um bom tempo, sorri e agradece. Na saída, pergunta à recepcionista quando pode voltar para terminar o resto.
  • Não fazer hoje e falar do espelho. Você fecha a seringa e conta o que vê: os lábios dela estão bonitos, e o que ela vê no espelho não é o que está ali. Sugere conversar com uma psicóloga antes de qualquer procedimento novo. Ela se levanta, pede o dinheiro de volta e diz que conhece outra clínica que faz.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à sala de procedimentos antes das 9h30. A Larissa tinha acabado de deitar e a anestesia tópica nem estava no rosto ainda. A conversa começou antes de qualquer agulha.
  • Entre 9h30 e 11h30: Você foi à sala de procedimentos depois das 9h30. A técnica já tinha passado a anestesia tópica, e a Larissa estava com o rosto dormente esperando. Qualquer conversa agora começava com ela já pronta.
  • Depois das 11h30: A sala de procedimentos ficou para depois das 11h30. A sua sócia passou pela sala, viu a Larissa esperando e se ofereceu para atendê-la. O que quer que tenha sido decidido depois, ela já tinha ouvido a opinião de outra médica.

Recepção: O remédio que o plano negou

O Seu Nelson, 46 anos, é mecânico e tem psoríase nas mãos e nos pés: a pele racha, sangra, e ele não consegue segurar uma chave. Os remédios comuns pararam de funcionar. Você pediu um biológico, um remédio de injeção que costuma limpar a pele em semanas. O plano negou ontem.

Ele está na recepção com a carta da negativa na mão. Diz que, se ficar mais um mês assim, perde o emprego.

  • Escrever o recurso e esperar o biológico. Você escreve um relatório de três páginas com fotos, escores e a lista do que já falhou. O recurso vai hoje. O plano tem até 30 dias para responder. Você prescreve um creme para segurar o que der, e o Seu Nelson sai olhando as mãos.
  • Começar agora um remédio oral mais antigo. Você prescreve um imunossupressor em comprimido, que o plano cobre, e pede exames de fígado para daqui a quatro semanas. Explica que pode levar dois meses para melhorar. Ele pergunta se pode beber cerveja no fim de semana. Não pode.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você atendeu o Seu Nelson antes das 9h. Ele ainda estava no horário de almoço adiantado que o chefe deu. A conversa coube sem ele olhar o relógio.
  • Entre 9h e 10h30: Você atendeu o Seu Nelson depois das 9h. Ele já tinha ligado para a oficina avisando que ia atrasar. A conversa aconteceu com ele de pé, com a chave do carro na mão.
  • Depois das 10h30: O Seu Nelson ficou para depois das 10h30. Ele precisou voltar à oficina e deixou a carta do plano com a recepcionista. O que quer que tenha sido decidido depois, chegou a ele por mensagem.

Sala de laser: Uma faixa vermelha no rosto

A Dona Glória fez laser para manchas ontem, com a técnica da clínica, sob sua responsabilidade. Hoje voltou com uma faixa de queimadura na bochecha. Na ficha, ela disse que não tinha tomado sol; o bronzeado da pele diz outra coisa, e o laser queima mais em pele bronzeada. A técnica também usou a potência do protocolo de pele clara.

A queimadura vai sarar, com cuidado, em três semanas. A Dona Glória quer saber de quem foi o erro. Sua sócia, na porta, pede que você não escreva nada antes de falar com o advogado.

  • Explicar as duas causas e oferecer o tratamento. Você diz que houve duas coisas: o sol que ela não contou e a potência que a técnica não ajustou. Oferece o tratamento da queimadura sem custo e escreve isso no prontuário. A Dona Glória fica em silêncio, depois agradece por ninguém ter dito que a culpa era só dela. A sua sócia não fala com você até o fim do dia.
  • Tratar e registrar como intercorrência do procedimento. Você trata a queimadura, explica os cuidados e registra no prontuário: intercorrência possível em pele com exposição solar recente. É verdade. A potência não aparece. A Dona Glória sai com a pomada e a sensação de que a culpa foi do sol dela.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à sala de laser antes das 10h. A Dona Glória ainda estava calma, e a queimadura, tratada cedo, ia sarar sem mancha.
  • Entre 10h e 12h: Você foi à sala de laser depois das 10h. Ela já tinha mandado foto da queimadura para a filha, que é advogada. A conversa começou com ela lendo uma mensagem em voz alta.
  • Depois das 12h: A sala de laser ficou para depois do meio-dia. A técnica atendeu a Dona Glória sozinha e passou uma pomada. O que quer que tenha sido dito depois, ela já tinha ouvido da técnica que "isso às vezes acontece".

Copa: Café, e a clínica vista da copa

A técnica do laser e a recepcionista dividem um pão de queijo, de pé.

“…a máquina tava no protocolo da paciente das oito, que era bem branquinha. Eu não mudei. Tinha seis na fila.”

Você não perguntou nada. Saiu sabendo exatamente o que aconteceu ontem na sala de laser, e quinze minutos mais tarde.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o doutor das retiradas perguntou se tem alguém pra semana. Fecha a agenda às três.
  • …a moça do preenchimento tá deitada desde as nove com a foto da atriz no celular.
  • …o senhor da psoríase tá com as mãos enfaixadas na recepção. Perguntou duas vezes se vai demorar.
  • …a doutora sócia chamou o advogado por causa da senhora do laser.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Não fazer hoje e falar do espelho” e “Tratar e registrar como intercorrência do procedimento”: No mesmo dia, você recusou um procedimento para proteger uma paciente e escreveu o de outra sem a potência da máquina. Nos dois prontuários, cada palavra foi escolhida por você.
  • Se você escolheu “Explicar as duas causas e oferecer o tratamento”: A filha da Dona Glória leu o prontuário e não entrou com processo. Três semanas depois, a Dona Glória voltou para ver a pele, e marcou com você o tratamento das manchas que faltavam.
  • Se você escolheu “Escrever o recurso e esperar o biológico”: O recurso foi aprovado em 34 dias. Até lá, o Seu Nelson faltou quatro dias na oficina. Na primeira semana do biológico, mandou à clínica uma foto das mãos segurando uma chave de roda.
  • Se você escolheu “Fazer, com pouco volume” e “Explicar as duas causas e oferecer o tratamento”: Você contou à Dona Glória o erro da técnica e fez na Larissa o preenchimento que ela pedia, com menos volume. Na reunião de sócias de sexta, as duas histórias foram discutidas lado a lado, como exemplos do que a clínica faz quando a paciente quer outra coisa.

Como o dia termina

Você foi para as pintas primeiro.

Havia um homem com as mãos rachadas, uma paciente pedindo mais preenchimento e uma queimadura na sala de laser, e você abriu o mapeamento de alguém que não estava na clínica. Passou 50 min multiplicando assimetria, bordas e cores.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que não dói e pode matar. Dermatologia oncológica é isso: o caso mais grave do dia é muitas vezes o mais quieto.

Você foi para a Larissa primeiro.

Você começou pela sala de procedimentos, com uma paciente e uma foto de atriz. Passou 40 min entre o que ela via no espelho e o que você via no rosto dela.

Dermatologia estética é isso: a técnica é a parte fácil. A difícil é decidir, com a seringa aberta, quando o pedido da paciente não é sobre a pele.

Você foi para o Seu Nelson primeiro.

Você começou pela recepção, com um homem que não conseguia segurar uma chave e uma carta do plano de saúde. Passou 40 min entre o remédio certo e o remédio possível.

Dermatologia clínica é isso: doença de pele que não mata, mas tira o emprego, o sono e a vontade de sair de casa, e um tratamento que depende de quem paga.

Você foi para a queimadura primeiro.

Você começou pela sala de laser, com uma paciente machucada e uma sócia pedindo silêncio. Passou 45 min entre o que aconteceu e o que escrever sobre o que aconteceu.

Procedimento é isso: quem assina responde também pelo que a equipe fez, e a primeira conversa depois do erro decide muito do que vem depois.

As quatro portas da dermatologia

Dermatologia não é um trabalho só, são vários, e eles se separam pelo tipo de problema, não pela parte do corpo.

  • Diagnóstico e câncer de pele. Achar a lesão grave no meio de muitas que não são, antes que doa.
  • Dermatologia clínica. Tratar doença crônica de pele que muda a vida inteira de quem tem.
  • Dermatologia estética. Mudar o rosto de alguém com técnica, e saber quando não mudar.
  • Procedimentos e responsabilidade. Responder pelo que a mão, a máquina e a equipe fazem na pele de alguém.