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Um dia na pele de

O conteúdo do app de mercado

Você cuida do conteúdo de um app de mercado que entrega compras em duas horas: o podcast da empresa, o blog, as redes, e um time de duas pessoas contando com você. Nesta sexta-feira, o episódio com o CEO vai ao ar às 18h, e quatro coisas pedem você ao mesmo tempo. Você decide a ordem.

O conteúdo sai da sua mesa, mas as histórias estão na sala de reunião, na ilha do time, na mesa da operação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Publicar o que é verdade, no dia marcado, com a voz de quem não escreveu.

Profissões com um dia assim: Especialista em Podcast Corporativo · Head de Conteúdo

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O conteúdo do app de mercado: o dia por escrito

Você cuida do conteúdo de um app de mercado que entrega compras em duas horas: o podcast da empresa, o blog, as redes, e um time de duas pessoas contando com você. Nesta sexta-feira, o episódio com o CEO vai ao ar às 18h, e quatro coisas pedem você ao mesmo tempo. Você decide a ordem.

O conteúdo sai da sua mesa, mas as histórias estão na sala de reunião, na ilha do time, na mesa da operação. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: A data que não bate

O episódio com o CEO foi gravado ontem: quarenta minutos contando a história da empresa, de memória. Antes de ir ao ar, alguém precisa conferir o que ele disse. Um jornalista de economia ouve o podcast toda semana.

Você abre a transcrição e separa as frases com data. A empresa foi fundada em 2020; a entrevista é de 2026.

Ache a frase em que a conta dos anos não fecha com o ano que ele diz. É essa. "Quase fechamos as portas há 2 anos, em 2023." Há dois anos foi 2024. E em 2023 a empresa recebeu a primeira rodada de investimento, ele mesmo disse no minuto 9. Um ouvinte atento ouve um CEO que quase quebrou no ano em que levantou dinheiro. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. Deu tempo de o CEO regravar a frase em dois minutos, no celular, e de a edição encaixar sem ninguém ouvir a costura.
  • Entre 12h e 16h: Você achou depois do meio-dia. O CEO já tinha saído para um almoço com investidor. A frase foi cortada em vez de regravada, e a história da crise ficou com um buraco no meio.
  • Depois das 16h: A transcrição ficou para depois das 16h. Depois das 16h, o áudio já estava travado para a publicação das 18h. O que quer que tenha sido corrigido, só dava para corrigir por escrito, na descrição do episódio, que quase ninguém lê.

Sala de reunião: O melhor minuto do episódio

O CEO ouviu a edição de manhã e quer cortar um trecho: os quatro minutos em que conta que a empresa quase fechou, a voz falhando no meio. "Ficou fraco. Investidor ouve isso."

É o trecho que fez a equipe inteira parar de trabalhar para ouvir. O resto do episódio é a história de sucesso que todo CEO conta.

  • Cortar, como ele pediu. Você corta os quatro minutos. O CEO aprova o episódio sem ouvir de novo. O episódio fica redondo, do tipo que se ouve inteiro e se esquece no dia seguinte.
  • Defender o trecho e pedir que ele ouça de novo. Você explica por que o trecho segura o episódio e manda para ele ouvir de novo, sozinho. Ele demora horas para responder. No fim da tarde, manda uma mensagem: "Deixa. Mas tira a parte em que eu falo do banco."

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. O CEO ainda estava com o fone no ouvido, ouvindo. A conversa foi sobre o episódio, não sobre uma decisão que ele já tinha tomado.
  • Entre 11h e 15h: Você entrou depois das 11h. O CEO já tinha mandado o pedido de corte por escrito, com a diretora de marketing em cópia. O que você disse, disse para mudar uma ordem.
  • Depois das 15h: A sala de reunião ficou para depois das 15h. O CEO pediu o corte direto ao editor, que cortou. O que quer que tenha sido conversado depois, foi sobre um trecho que já estava fora da edição.

Ilha do conteúdo: O texto que já existia

A Bia, redatora que entrou há dois meses, entregou o texto do blog da semana: "Como montar a lista de compras do mês". Está agendado para as 14h. Você cola um parágrafo no buscador e acha o mesmo parágrafo, com outras palavras na ordem certa, no blog de um concorrente.

O resto do texto também.

  • Publicar outro texto do banco e conversar com ela na segunda. Você troca o agendamento por um texto antigo que estava guardado. O blog não atrasa. A Bia vê a troca no sistema e passa a tarde sem saber o que aconteceu. Na segunda, a conversa começa com ela já tendo imaginado a pior versão.
  • Sentar com ela agora e reescrever o texto. Você mostra os dois textos lado a lado. A Bia fica vermelha e diz que "só usou de base". Vocês reescrevem do zero, e o texto sai horas depois do agendado. Ela pergunta, no fim, como se faz pesquisa sem copiar. É a primeira vez que alguém explica.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à ilha do conteúdo antes das 10h30. A Bia ainda estava começando o texto da semana que vem. Qualquer que fosse a conversa, ela não precisou largar nada no meio.
  • Entre 10h30 e 13h: Você foi à ilha do conteúdo depois das 10h30. A Bia já tinha divulgado o link agendado no grupo da empresa, com um "meu primeiro texto!". Qualquer mudança agora seria vista por todo mundo.
  • Depois das 13h: A ilha do conteúdo ficou para depois das 13h. O texto quase foi ao ar às 14h. Quem viu a semelhança, antes de você, foi a diretora de marketing, que mandou o print no seu privado com um ponto de interrogação.

Mesa da operação: O entregador que quer falar agora

Há semanas o podcast quer um episódio com quem faz a entrega. A Ana, da operação, achou o Josué: seis anos de moto, três no app. Ele está no intervalo e topa gravar agora, com o celular, ali mesmo.

Mas avisa: vai falar do valor que recebe por entrega. "Se for para falar só do que é bonito, não precisa de mim."

  • Gravar agora, do jeito que ele quiser falar. Vocês gravam vinte minutos na mesa da operação. O Josué fala da moto, dos clientes, da chuva, e do valor por entrega, com números. É a melhor conversa que o podcast já teve. Agora alguém vai ter que decidir se ela vai ao ar, e o Josué vai perguntar.
  • Marcar para outro dia, com pauta combinada. Você agradece e marca para a semana que vem, com perguntas mandadas antes. O Josué diz "tá bom" do jeito que as pessoas dizem quando já sabem como vai ser. Na semana seguinte, ele está numa rota longa e não aparece.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à operação antes das 10h. O intervalo do Josué tinha acabado de começar. Havia tempo para conversar antes de decidir qualquer coisa.
  • Entre 10h e 11h30: Você foi à operação depois das 10h. O intervalo estava no fim e o capacete já estava na mesa. O que quer que tenha sido combinado, foi combinado com ele de olho no relógio.
  • Depois das 11h30: A operação ficou para depois das 11h30. O Josué voltou para a rota sem ninguém do conteúdo aparecer. A Ana disse a ele que tinham se enrolado. Ele disse que já imaginava.

Copa: Café, e o conteúdo visto de fora

Duas pessoas do time de produto estão na máquina de café.

“…o podcast? Aquilo é o CEO falando bem dele mesmo. Ninguém ouve.”

Os episódios têm em média 4 mil ouvintes, e metade dos candidatos das últimas vagas disse na entrevista que conheceu a empresa por ali. Elas não sabem disso. Quinze minutos depois, você volta para a mesa sabendo como o seu trabalho é visto de dentro.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …aquele jornalista de economia comentou o último episódio no LinkedIn. Esse ele vai ouvir também.
  • …o CEO tá ouvindo o episódio de fone desde cedo. Disse que a parte da crise ficou fraca.
  • …a Bia tá toda feliz, o primeiro texto dela sai hoje às duas.
  • …tem um entregador lá na operação perguntando pelo pessoal do podcast.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Cortar, como ele pediu” e “Gravar agora, do jeito que ele quiser falar”: Você cortou a crise do CEO e gravou o entregador sem pauta. Na mesma sexta, o podcast deixou o Josué falar tudo e o CEO, não. Quando o episódio do Josué for discutido, alguém vai lembrar dos quatro minutos que saíram.
  • Se você escolheu “Defender o trecho e pedir que ele ouça de novo” e “Marcar para outro dia, com pauta combinada”: Você defendeu o trecho difícil do CEO e marcou pauta para o entregador. O podcast ficou com a crise de quem manda e deixou para depois a de quem entrega.
  • Se você escolheu “Cortar, como ele pediu” e “Publicar outro texto do banco e conversar com ela na segunda”: Você cortou o trecho do CEO e trocou o texto da Bia sem falar com ela. Duas coisas saíram do ar na mesma sexta, e só uma das pessoas sabe por quê.
  • Se você escolheu “Sentar com ela agora e reescrever o texto” e “Gravar agora, do jeito que ele quiser falar”: A manhã foi do Josué e a tarde foi da Bia. Duas pessoas ouviram você com calma na mesma sexta. O episódio do CEO foi editado no tempo que sobrou.

Como o dia termina

Você foi para a transcrição primeiro.

Havia um CEO querendo cortar o melhor trecho, uma redatora com um texto que já existia e um entregador no intervalo, e você abriu a transcrição. Passou 1h15 contando anos nos dedos.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você conferiu antes de publicar. Edição é essa parte invisível do conteúdo: o que não foi ao ar errado ninguém agradece.

Você foi para o CEO primeiro.

Você começou pela sala de reunião, onde o melhor minuto do episódio estava a um clique de sumir. Passou 40 min decidindo quanto da voz dele cabia no podcast dele.

Fazer podcast de empresa é isso: o programa é da marca, a voz é de uma pessoa, e quase toda semana as duas querem coisas diferentes.

Você foi para a Bia primeiro.

Você começou pela ilha do conteúdo, onde o primeiro texto de uma redatora nova era o texto de outra pessoa. Passou 50 min decidindo se a conversa era hoje ou na segunda.

Liderar conteúdo é isso: o que sai com o nome da marca é responsabilidade sua, e quem escreve ainda está aprendendo com você.

Você foi para o Josué primeiro.

Você começou pela operação, onde um entregador queria falar agora, do jeito dele. Passou 45 min entre gravar o que ele tinha para dizer e preparar o que a empresa queria ouvir.

Podcast é isso: a melhor conversa raramente acontece na hora marcada, e quase nunca do jeito que a pauta previu.

As três portas de Conteúdo

Conteúdo não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo formato.

  • Podcast e áudio. Fazer a marca falar em voz alta, por meio de pessoas que nem sempre querem dizer o mesmo.
  • Liderança de conteúdo. Decidir o que a marca publica e ensinar quem escreve por ela.
  • Edição e checagem. Conferir antes de publicar: o erro que não foi ao ar não aparece em lugar nenhum.