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Um dia na pele de

A sexta-feira do treinador antes do jogo

Você é a treinadora do time profissional de um clube do interior que disputa a Série D. Domingo, às 16h, o jogo em casa decide se o time passa para a fase seguinte. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Time não se escala da prancheta: o presidente está na diretoria, o zagueiro está no departamento médico, o goleiro está no campo. Andar pelo CT leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Escalar o time de domingo com o elenco que você tem, não com o que queria ter.

Profissões com um dia assim: Treinador de Futebol

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A sexta-feira do treinador antes do jogo: o dia por escrito

Você é a treinadora do time profissional de um clube do interior que disputa a Série D. Domingo, às 16h, o jogo em casa decide se o time passa para a fase seguinte. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Time não se escala da prancheta: o presidente está na diretoria, o zagueiro está no departamento médico, o goleiro está no campo. Andar pelo CT leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala de análise: Quem não pode jogar

O auxiliar deixou na sua mesa os doze nomes que ele imagina para domingo, com os cartões de cada um. A federação manda a lista de suspensos só no sábado à noite, depois do treino de bola parada.

A regra do campeonato: quem completa três amarelos cumpre um jogo de suspensão, e quem leva vermelho também. O último jogo foi duro.

Ache quem está suspenso para domingo. São esses três. Vitinho e Juninho completaram três amarelos, e Diego levou o vermelho. Caio e Lucas estão pendurados, com dois, mas jogam. Sem os três, saem três titulares do último jogo, e o treino de bola parada de amanhã tem de ser com outros nomes. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você fechou a escalação antes das 9h30. O treino da manhã ainda não tinha começado. Os três substitutos treinaram com o time titular desde o primeiro coletivo.
  • Entre 9h30 e 13h: Você fechou a escalação depois das 9h30. O coletivo da manhã foi com Vitinho, Juninho e Diego no time de cima. Os substitutos só souberam à tarde que vão jogar domingo.
  • Depois das 13h: A escalação ficou para depois das 13h. O dia inteiro de treino foi com três jogadores que não podem entrar em campo. O que quer que tenha sido decidido depois, o time de domingo vai treinar junto uma vez só, no sábado.

Sala da diretoria: O reforço que custou caro

O presidente chama você: o Wanderson, atacante de 34 anos contratado há três semanas com o maior salário do elenco, tem de começar jogando domingo. "A torcida quer ver, o patrocinador pagou metade."

O preparador físico diz que ele aguenta 45 minutos, talvez 60. O atacante que vem jogando tem 21 anos e fez gol nos dois últimos jogos.

  • Escalar o Wanderson de titular. Você diz ao presidente que o Wanderson começa, e planeja trocá-lo no intervalo. O presidente aperta a sua mão. À tarde, você vai ter de explicar ao atacante de 21 anos por que ele, que fez dois gols seguidos, sai do time.
  • Manter o garoto e o Wanderson no banco. Você explica a parte física e promete o Wanderson no segundo tempo. O presidente escuta, diz que respeita e que vai lembrar disso se o time perder. O patrocinador fica sabendo antes do fim do dia.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você entrou antes das 10h. O presidente ainda não tinha falado com a imprensa da cidade. A conversa foi entre vocês dois, sem manchete esperando a resposta.
  • Entre 10h e 14h: Você entrou depois das 10h. O presidente já tinha dito à rádio local que o Wanderson "vai estrear como titular". Você entrou para discutir uma coisa que já tinha sido anunciada.
  • Depois das 14h: A diretoria ficou para depois das 14h. O presidente foi embora e mandou o recado pelo gerente de futebol. O que quer que tenha sido decidido, foi decidido sem a conversa olho no olho, e com a rádio já falando do assunto.

Campo de treino: O goleiro que falhou

O Rafael, goleiro de 18 anos, subiu da base há dois meses. No último jogo, soltou uma bola fácil e o time empatou. Nas redes sociais, a torcida pede outro goleiro, com palavras que ele leu todas.

No treino de hoje, ele está calado, de cabeça baixa, e já errou duas defesas simples. O goleiro reserva tem 31 anos e não joga há quatro meses.

  • Manter o Rafael no gol domingo. Você chama o Rafael num canto e diz que ele joga domingo. Ele agradece com a voz baixa. No resto do treino, ele defende tudo, e você não sabe se domingo, com o estádio cheio, vai ser igual.
  • Escalar o reserva e conversar com o Rafael. Você explica ao Rafael que ele descansa domingo e que volta no próximo jogo. Ele balança a cabeça e não diz nada. O goleiro de 31 anos treina o resto da tarde no gol titular, e o Rafael fica ao lado, batendo bola sozinho.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao campo antes das 9h. O treino ainda estava no aquecimento. A conversa com o Rafael aconteceu antes de ele errar mais uma na frente de todo mundo.
  • Entre 9h e 11h30: Você foi ao campo depois das 9h. O Rafael já tinha errado mais duas no coletivo, e um zagueiro tinha gritado com ele. A conversa começou depois disso.
  • Depois das 11h30: O campo ficou para depois das 11h30. O treino da manhã acabou sem ninguém da comissão falar com o Rafael. O que quer que tenha sido dito depois, ele passou a manhã inteira sozinho com a falha.

Departamento médico: O capitão a 80 por cento

O Breno, zagueiro e capitão, sentiu a coxa na terça. O fisioterapeuta diz que é uma lesão leve: ele está a 80 por cento e pode jogar domingo, com risco real de a lesão abrir de novo e ele ficar um mês fora.

O Breno quer jogar. Diz que é o jogo do ano e que a coxa aguenta.

  • Escalar o Breno. Você diz ao Breno que ele joga, com ordem do fisioterapeuta para pedir a troca à primeira dor. Ele sai do departamento médico mais leve. Se a coxa abrir domingo, ele perde o próximo mês inteiro.
  • Poupar o Breno domingo. Você explica que prefere o Breno inteiro para o resto do campeonato. Ele não discute, mas pede para ir ao banco, de uniforme. O zagueiro reserva tem 20 anos e nunca jogou uma partida decisiva.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi ao departamento médico antes das 10h30. O fisioterapeuta ainda estava com o exame aberto na tela. Deu para ver a imagem da coxa e decidir com a explicação inteira.
  • Entre 10h30 e 14h30: Você foi ao departamento médico depois das 10h30. O Breno já tinha dito no vestiário que joga domingo de qualquer jeito. A conversa com ele passou a ter o grupo inteiro como plateia.
  • Depois das 14h30: O departamento médico ficou para depois das 14h30. O fisioterapeuta foi embora às 15h e deixou o laudo na sua mesa. O que quer que tenha sido decidido, foi decidido sobre papel, sem ninguém para responder às suas perguntas.

Refeitório: Café, e a treinadora vista da cozinha

A cozinheira do CT conversa com o roupeiro enquanto serve o café.

“…treinador é o primeiro que cai. Ganhou, foi o time; perdeu, foi ela.”

Ela está no clube há 22 anos e viu sair 19 treinadores. Quinze minutos depois, você volta para o trabalho sabendo que o roupeiro concordou com a cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o auxiliar acha que o Vitinho tava com dois amarelos. Ou era o Caio?
  • …o presidente vai dar entrevista na rádio hoje sobre o Wanderson.
  • …viu o que escreveram pro goleirinho? Ele leu tudo.
  • …o Breno disse que joga domingo nem que seja de uma perna só.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Escalar o Wanderson de titular” e “Escalar o Breno”: Você escalou o Wanderson, que aguenta 60 minutos, e o Breno, a 80 por cento. Domingo, duas das suas três substituições já estão escritas antes de a bola rolar.
  • Se você escolheu “Manter o Rafael no gol domingo” e “Poupar o Breno domingo”: Você manteve o goleiro de 18 anos e poupou o capitão. Domingo, o gol e a zaga do jogo do ano são de dois garotos, um de 18 e um de 20, e o mais experiente da defesa está no banco, de uniforme.
  • Se você escolheu “Manter o garoto e o Wanderson no banco” e “Escalar o reserva e conversar com o Rafael”: Você deixou o Wanderson no banco e tirou o Rafael do gol. Dois jogadores vão ver o jogo do banco por decisão sua, um porque não está pronto no corpo, outro porque não está pronto na cabeça. Os dois vão perguntar quando voltam.
  • Se você escolheu “Escalar o reserva e conversar com o Rafael” e “Escalar o Breno”: Você escalou o goleiro de 31 anos e o capitão a 80 por cento. Domingo, a defesa é a mais experiente que o clube tem, com um goleiro sem ritmo de jogo e um zagueiro que pode pedir a troca a qualquer hora.

Como o dia termina

Você foi para a escalação primeiro.

Havia um presidente com um reforço caro, um goleiro de cabeça baixa e um capitão com a coxa, e você abriu a lista de cartões. Passou 1h00 descobrindo quem não pode jogar.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que é certo antes do que é discutível. Análise de desempenho e scouting começam aí: saber exatamente com o que se conta antes de decidir.

Você foi para o presidente primeiro.

Você começou pela diretoria, onde a escalação de domingo tinha também um patrocinador. Passou 40 min entre o campo e quem paga.

Treinar um time profissional é isso: a escolha é técnica, e quem cobra por ela nem sempre é.

Você foi para o goleiro primeiro.

Você começou pelo campo, com um garoto de 18 anos que leu tudo o que escreveram sobre ele. Passou 45 min decidindo o que ele precisa ouvir.

A psicologia do esporte vive disso: o corpo está pronto, e a cabeça é que decide o domingo.

Você foi para o departamento médico primeiro.

Você começou pela coxa do capitão. Passou 40 min entre o jogo do ano e o mês que vem.

Quem comanda a comissão técnica decide isso toda semana: cada jogador inteiro hoje pode ser um jogador fora amanhã, e o jogador quase sempre quer jogar.

As três portas do coaching esportivo

Comandar um time não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo esporte.

  • Comissão técnica. Escalar, treinar e decidir quem joga, com o elenco e a diretoria que existem.
  • Análise e scouting. Saber com precisão o que o time tem e o que o adversário faz, antes de qualquer decisão.
  • Psicologia do esporte. Cuidar da cabeça de quem joga: pressão, falha, torcida e confiança.