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Um dia na pele de

A quarta do cirurgião geral

Você é a cirurgiã geral de plantão de um hospital de 150 leitos: responde pelo mapa do centro cirúrgico, pelos operados da enfermaria e pelo que chega do pronto-socorro. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cirurgia não se decide no prontuário: o mapa está no posto, a febre no quarto, a biópsia na sala de procedimentos e a disputa pela sala no centro cirúrgico. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Uma sala de cirurgia, mais gente precisando dela do que horas no dia.

Profissões com um dia assim: Cirurgião Geral · Cirurgião Oncológico · Cirurgião Coloproctologista

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A quarta do cirurgião geral: o dia por escrito

Você é a cirurgiã geral de plantão de um hospital de 150 leitos: responde pelo mapa do centro cirúrgico, pelos operados da enfermaria e pelo que chega do pronto-socorro. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Cirurgia não se decide no prontuário: o mapa está no posto, a febre no quarto, a biópsia na sala de procedimentos e a disputa pela sala no centro cirúrgico. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Posto de enfermagem: Doze nomes no mapa, três que comeram

O mapa cirúrgico de hoje tem doze pacientes. A enfermagem anotou, ao lado de cada nome, a hora da última refeição que o paciente contou. A regra da anestesia é de oito horas sem comer antes de entrar na sala: quem tem menos que isso não opera hoje, ou opera mais tarde.

O mapa foi montado ontem, antes de alguém perguntar o que cada um jantou.

Ache os pacientes com menos de 8 horas entre a última refeição e o horário da cirurgia. São esses três. Seu Josué (7h30 sem comer), Seu Wilson (7h30) e Seu Davi (7h20). A Dona Rosa engana: comeu hoje de manhã, mas a cirurgia dela é às 14h30, e dá oito horas certinhas. Três horários para remanejar antes de alguém descobrir na porta da sala. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você achou antes das 8h30. O centro cirúrgico recebeu o mapa corrigido antes da primeira incisão. Os três horários foram empurrados para o fim da tarde e ninguém precisou ser desmarcado.
  • Entre 8h30 e 10h: Você achou depois das 8h30. O Seu Josué já estava de avental na porta da sala quando a anestesista perguntou o que ele tinha comido. A sala ficou quarenta minutos parada até o próximo paciente descer.
  • Depois das 10h: O mapa ficou para depois das 10h. A anestesia foi descobrindo os jejuns curtos na porta da sala, um por um. O que quer que tenha sido corrigido depois, o centro cirúrgico passou a manhã trocando a ordem no grito.

Quarto 304: A febre do terceiro dia

O Seu Expedito, 66 anos, tirou um pedaço do intestino na segunda por causa de um tumor. Hoje, no terceiro dia, amanheceu com 38,6 graus, a barriga mais dura e o coração acelerado. Pode ser a emenda do intestino vazando. Pode ser uma pneumonia, que também dá febre no terceiro dia.

A tomografia mostraria a diferença, mas o aparelho tem fila até o começo da tarde. A esposa dele pergunta se ele vai ter que ser operado de novo.

  • Levar de volta ao centro cirúrgico hoje. Você explica à esposa que vai reabrir para olhar a emenda por dentro e pede a sala para o Seu Expedito. Ela assina chorando. Na anotação do prontuário, você escreve o que viu na barriga dele para justificar não esperar a imagem.
  • Antibiótico agora e esperar a tomografia. Você começa o antibiótico, pede a tomografia como urgente e combina com a enfermagem que qualquer piora te chama na hora. A esposa fica no quarto olhando o monitor. Até a imagem sair, a decisão fica aberta, e você também.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao quarto antes das 9h30. A febre tinha começado de madrugada, e a decisão veio com a esposa ainda no quarto e a residente do lado, ouvindo a mesma explicação.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi ao quarto depois das 9h30. A enfermagem já tinha chamado o plantonista da clínica, que pediu exames de sangue sem saber da cirurgia. Você chegou para decidir em cima de um plano que outra pessoa começou.
  • Depois das 12h: O quarto ficou para depois do meio-dia. O Seu Expedito passou a manhã com febre e a barriga sendo apalpada por quem passava. O que quer que tenha sido decidido depois, a esposa já tinha ligado para os filhos virem.

Sala de procedimentos: O resultado que chegou ontem

A Dona Marta, 58 anos, veio tirar os pontos da biópsia da mama e saber o resultado. O laudo chegou ontem à noite: é câncer, com 3 centímetros. Dá para operar. Também dá para começar pela quimioterapia, encolher o tumor e operar menos mama depois. A reunião em que oncologia e cirurgia discutem os casos é só na sexta.

Ela trouxe a irmã e uma lista de perguntas escrita à mão.

  • Marcar a cirurgia para a semana que vem. Você explica o laudo, o que vai ser retirado e por quê, e marca a cirurgia para a outra quarta. A irmã anota tudo. A Dona Marta sai da sala com uma data no papel e a pergunta da quimioterapia sem resposta, porque ninguém fez.
  • Levar o caso à reunião de sexta antes de decidir. Você explica o laudo e diz que o caminho vai ser decidido na sexta, com a oncologista na mesa. A Dona Marta pergunta se dois dias fazem diferença. Você diz que não, e ela agradece. A irmã pergunta se pode ligar na sexta à noite.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à sala de procedimentos antes das 11h. A Dona Marta estava esperando há meia hora, com a lista na mão. A conversa teve o tempo que precisava, sem ninguém batendo na porta.
  • Entre 11h e 14h: Você foi à sala de procedimentos depois das 11h. A Dona Marta esperou três horas sentada no corredor. Quando você entrou, a irmã já tinha lido o laudo pelo celular e pesquisado cada palavra.
  • Depois das 14h: A biópsia ficou para depois das 14h. A enfermeira tirou os pontos e a Dona Marta ficou esperando o médico até o meio da tarde. O que quer que tenha sido dito depois, ela já tinha passado o dia num corredor de hospital sabendo que o laudo tinha chegado.

Centro cirúrgico: Uma sala, um apêndice e uma hérnia

O pronto-socorro mandou o Gabriel, 19 anos, com dor do lado direito da barriga desde ontem: apendicite. A única sala livre do plantão está reservada para a hérnia do Seu Jorge, que está em jejum desde a noite passada, tirou o dia de folga e já foi desmarcado duas vezes este mês.

O apêndice aguenta umas horas com antibiótico. Ninguém sabe dizer quantas.

  • Operar o Gabriel agora e empurrar a hérnia. O Gabriel sobe para a sala e o apêndice sai inflamado, sem ter estourado. O Seu Jorge fica sabendo pela enfermeira que a hérnia passou para o fim do dia, se sobrar sala. Ele pede para falar com você, e você vai.
  • Manter a hérnia e operar o Gabriel à noite. O Seu Jorge entra no horário. O Gabriel recebe antibiótico e soro e fica no pronto-socorro esperando a sala da noite. A mãe dele pergunta duas vezes por que o filho com dor espera e o senhor da hérnia não.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao centro cirúrgico antes das 9h. A sala ainda estava sendo montada. A decisão chegou antes de a instrumentadora abrir o material de um dos dois.
  • Entre 9h e 11h: Você foi ao centro cirúrgico depois das 9h. A sala ficou pronta e parada esperando alguém dizer quem entrava. A anestesista mandou chamar você duas vezes pelo telefone do corredor.
  • Depois das 11h: O centro cirúrgico ficou para depois das 11h. A coordenação do centro cirúrgico decidiu sem você e anotou no livro que a cirurgia geral não respondeu. O que quer que tenha sido feito depois, a manhã da sala foi perdida.

Copa da equipe: Café, e o cirurgião visto de fora

Uma anestesista e um técnico de enfermagem dividem a garrafa térmica.

“…cirurgião só quer saber de operar. Quem decide se dá para operar somos nós.”

Metade do seu dia é decidir quem não opera hoje: quem comeu, quem pode esperar, quem precisa conversar antes. Isso não aparece no mapa. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase no bolso do jaleco.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …acho que o senhor do 308 tomou café de madrugada. Alguém conferiu?
  • …a esposa do Seu Expedito tá perguntando se ele vai ser operado de novo.
  • …o menino do apêndice tá no PS desde ontem à noite. A mãe não sai do lado.
  • …a moça da biópsia trouxe uma lista de perguntas escrita à mão.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Levar de volta ao centro cirúrgico hoje” e “Operar o Gabriel agora e empurrar a hérnia”: O Seu Expedito voltou para a sala e o Gabriel entrou antes da hérnia. A tarde não teve espaço para o Seu Jorge, que foi para casa desmarcado pela terceira vez no mês.
  • Se você escolheu “Levar de volta ao centro cirúrgico hoje” e “Manter a hérnia e operar o Gabriel à noite”: A sala ficou com a hérnia e com a reabertura do Seu Expedito. O apêndice do Gabriel foi para a noite, com o plantonista que chega às 19h e não conhece o caso.
  • Se você escolheu “Antibiótico agora e esperar a tomografia” e “Levar o caso à reunião de sexta antes de decidir”: Duas vezes na mesma quarta, você escolheu esperar mais uma informação antes de cortar: a tomografia do Seu Expedito e a reunião da Dona Marta. As duas famílias foram para casa com um telefone para ligar, não com uma data.
  • Se você escolheu “Marcar a cirurgia para a semana que vem” e “Manter a hérnia e operar o Gabriel à noite”: A Dona Marta saiu com cirurgia marcada para a outra quarta e o Seu Jorge foi operado no horário. O mapa da semana que vem já nasceu com um nome a mais e uma urgência a menos de folga.

Como o dia termina

Você foi para o mapa primeiro.

Havia uma febre, uma biópsia para contar e um apêndice esperando sala, e você começou pela lista que ninguém estava cobrando. Passou 1h10 subtraindo hora de jantar de hora de cirurgia.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que ia dar errado na porta da sala antes de alguém descobrir. Na cirurgia geral, o dia é ganho ou perdido no mapa, antes da primeira incisão.

Você foi para a febre primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu o paciente que já era seu: um intestino que você mesma tinha emendado dois dias antes. Passou 45 min decidindo entre reabrir e esperar a imagem.

Quem opera intestino vive esse terceiro dia muitas vezes: o corte terminou, mas a cirurgia só termina quando a emenda segura.

Você foi para a conversa primeiro.

Você começou pela sala onde ninguém estava em risco hoje e alguém ia ouvir a palavra câncer pela primeira vez. Passou 40 min decidindo se ela saía com uma data ou com uma reunião.

Na cirurgia oncológica, a operação é uma parte do tratamento, e quase sempre não é a primeira. A conversa é.

Você foi para a sala primeiro.

Havia um mapa, uma febre e uma biópsia, e você foi direto para onde dois pacientes disputavam a mesma mesa. Passou 50 min decidindo quem entrava e quem esperava.

O plantão de cirurgia geral é isso: a urgência não pede licença ao que foi marcado, e alguém sempre fica para depois.

As três portas da cirurgia de hospital geral

Operar não é uma profissão só, são várias, e as deste dia se separam pelo tipo de problema, não pelo órgão.

  • Cirurgia geral. Responder pelo plantão: o mapa, o pronto-socorro e quem entra na sala primeiro.
  • Cirurgia oncológica. Operar tumor como uma etapa de um tratamento decidido com outras equipes.
  • Coloproctologia. Cuidar do intestino de ponta a ponta, do exame à emenda que precisa segurar.