Um dia na pele de
A diária 14 de um longa
Você é a produtora de set de um longa-metragem de baixo orçamento, filmado num galpão transformado em estúdio. Hoje é a diária 14 de 24: o dinheiro já está contado até a última, e cada hora a mais sai de algum lugar. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sala da produção: está no set, no camarim, na ilha de edição. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fazer o filme que o diretor quer com o tempo e o dinheiro que o filme tem.
Profissões com um dia assim: Produtor Audiovisual · Diretor de Cinema · Diretor de Fotografia · Maquiador Artístico · +1
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A diária 14 de um longa: o dia por escrito
Você é a produtora de set de um longa-metragem de baixo orçamento, filmado num galpão transformado em estúdio. Hoje é a diária 14 de 24: o dinheiro já está contado até a última, e cada hora a mais sai de algum lugar. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve na sala da produção: está no set, no camarim, na ilha de edição. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sala da produção: As onze horas entre uma diária e outra
A ordem do dia de amanhã precisa sair para os 40 da equipe até as 16h. Ela diz a que horas cada um chega. Entre o fim de uma diária e a chamada da seguinte, todo mundo precisa ter pelo menos onze horas de descanso: é a lei, e é o que separa uma equipe cansada de um acidente com refletor.
Hoje, cada departamento sai num horário diferente. A planilha tem a saída prevista de hoje e a chamada de amanhã. O descanso, ninguém calculou.
Ache quem teria menos de onze horas de descanso. São esses quatro: Rita e Tiago com dez horas e meia, Davi com dez, Edu com dez e meia. O Rui sai às 22h e mesmo assim descansa onze, porque entra às 9h. A Carla, que chega às seis, também fecha onze. Quem sai tarde não é, sozinho, o problema: é a conta das duas pontas. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você achou antes do meio-dia. Deu tempo de reorganizar a manhã de amanhã em torno dos quatro: a filmagem começa com quem descansou, e a luz da Rita entra no segundo plano do dia.
- Entre 12h e 16h: Você achou depois do meio-dia. A ordem do dia saiu corrigida antes das 16h, mas a assistente de direção já tinha planejado a manhã com a Rita às sete. Amanhã começa com o primeiro plano trocado de lugar.
- Depois das 16h: A ordem do dia ficou para depois das 16h. A ordem do dia de amanhã saiu para os 40 da equipe com as chamadas antigas. O que quer que tenha sido corrigido depois, quatro pessoas já tinham ajustado o despertador para dormir menos do que deviam.
Set: Quatro minutos sem cortar
A cena 41 estava decupada em seis planos, e a luz está sendo montada para eles. O diretor, Caio, chegou com uma ideia: fazer a cena inteira num plano-sequência de quatro minutos, a câmera seguindo a atriz pela casa. "É o coração do filme."
Os seis planos fecham até as 15h. O plano-sequência precisa de duas horas de ensaio e pode passar das 18h. Depois da cena 41 vem a 42, noturna, que não tem outro dia para acontecer.
- Dar ao Caio as duas horas de ensaio. O ensaio leva duas horas e meia. No sétimo take, sai: quatro minutos sem corte, a equipe aplaude no fim. A diária vira hora extra, R$ 18 mil que não estavam no orçamento, e a cena 42 passa para a semana que vem, no lugar de outra.
- Segurar os seis planos planejados. Os seis planos saem até as 15h e a cena 42 entra no horário. Caio filma tudo sem reclamar e, no fim, diz que a cena ficou "correta". Não diz mais nada até o jantar.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi ao set antes das 9h. A equipe ainda estava montando a luz. Dava para mudar o plano antes de qualquer refletor ir para o lugar errado.
- Entre 9h e 11h: Você foi ao set depois das 9h. A luz dos seis planos já estava montada. Qualquer mudança agora era desmontar o que levou duas horas para subir.
- Depois das 11h: O set ficou para depois das 11h. Caio começou a ensaiar o plano-sequência por conta própria com o elenco. O que quer que tenha sido decidido depois, a manhã já tinha ido num ensaio sem resposta da produção.
Camarim: A pele que não aceitou a cola
A Marta, atriz principal, faz uma personagem trinta anos mais velha: todo dia são duas horas de prótese no rosto. Hoje a pele reagiu à cola e ficou vermelha. A Carla, maquiadora, dá duas saídas: trocar o adesivo e esperar a pele acalmar, uma hora e meia; ou fazer o envelhecimento só com maquiagem, em quarenta minutos.
A cena de hoje continua, sem corte de tempo, a cena que foi filmada ontem com a prótese completa.
- Esperar a pele acalmar e refazer a prótese. A Carla troca o adesivo, a Marta entra no set igual a ontem. A equipe esperou com a luz pronta. Na planilha da produção, a hora e meia aparece como "atraso de elenco", e a Marta sabe disso.
- Fazer só com maquiagem e deixar a diferença para a pós. Em quarenta minutos a Marta está pronta. No monitor, as rugas de ontem ficaram mais suaves. A continuísta anota a diferença; a montagem e a cor vão ter de disfarçar, e alguém vai ter de pagar essas horas de pós.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h: Você foi ao camarim antes das 8h. A Marta tinha acabado de sentar na cadeira. Dava para escolher antes de qualquer cola nova chegar perto da pele.
- Entre 8h e 9h30: Você foi ao camarim depois das 8h. A Carla já tinha tentado o adesivo de novo, e a pele piorou. Qualquer caminho agora começava com meia hora de compressa fria.
- Depois das 9h30: O camarim ficou para depois das 9h30. A Marta passou a manhã na cadeira esperando alguém decidir. O que quer que tenha sido feito depois, a atriz principal chegou ao set sabendo que tinha ficado por último.
Ilha de edição: O take que não abriu
Davi, que copia o material da câmera para os discos toda noite, chama você na ilha de edição. Um arquivo do cartão de ontem não abre: é o take 5 da cena 32, a despedida dos irmãos. Foi o take em que a equipe chorou, o que o Caio marcou como "o take". Os takes 2 e 3 estão inteiros, e são bons. Não são aquele.
Refilmar exige a mesma casa, os dois atores e meia equipe num sábado.
- Remarcar a cena 32 para sábado. No sábado, meia equipe e os dois atores voltam à casa. A cena sai bonita, parecida com a de ontem, nunca igual. São R$ 40 mil e um sábado que ninguém queria trabalhar.
- Montar com o take 3 e seguir. O montador trabalha com o take 3. Ninguém precisa voltar. Na primeira montagem, Caio assiste à cena 32 em silêncio e pede para ver o take 5, que não existe mais.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à ilha antes das 11h. O dono da casa da cena 32 ainda tinha o sábado livre. A decisão ainda tinha as duas portas abertas.
- Entre 11h e 14h: Você foi à ilha depois das 11h. O dono da casa já tinha outra proposta para o sábado. Remarcar ficou mais caro, e não remarcar ficou mais fácil de justificar.
- Depois das 14h: A ilha ficou para depois das 14h. A casa da cena 32 foi alugada para outro trabalho no sábado. O que quer que tenha sido decidido depois, voltar a ela custaria esperar duas semanas.
Catering: Café, e o cinema visto do catering
Dois eletricistas estão na mesa do catering, de luva no bolso.
“…diretor fala ação e corta, e quem carrega o refletor de dez quilos escada acima somos nós. No crédito, a gente é a letra pequena.”
Um deles está na equipe desde a primeira diária e nunca viu uma cena montada. Quinze minutos depois, você volta para a produção lembrando que todo plano novo pesa no ombro de alguém.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …a Rita perguntou se amanhã é às sete de novo. Hoje ela só sai depois das oito.
- …o Caio tá com uma ideia nova pra 41. Pediu pra segurar a luz.
- …a Marta tá com o rosto vermelho no camarim. A Carla tá esperando alguém decidir.
- …o Davi não saiu da ilha desde cedo. Alguma coisa com o cartão de ontem.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Dar ao Caio as duas horas de ensaio” e “Esperar a pele acalmar e refazer a prótese”: A manhã esperou a prótese e a tarde esperou o plano-sequência. A diária terminou às 21h, e a ordem do dia de amanhã começou com a equipe inteira devendo descanso.
- Se você escolheu “Dar ao Caio as duas horas de ensaio” e “Remarcar a cena 32 para sábado”: Hora extra hoje e meia diária no sábado: na mesma quarta, o filme gastou R$ 58 mil que não estavam no orçamento. As duas vezes, por uma cena melhor. Na diária 24, vai faltar exatamente isso.
- Se você escolheu “Fazer só com maquiagem e deixar a diferença para a pós” e “Montar com o take 3 e seguir”: A cena 41 com maquiagem diferente e a cena 32 sem o melhor take foram para a ilha com um bilhete seu. A montagem vai passar uma semana resolvendo o que o set decidiu em minutos.
- Se você escolheu “Segurar os seis planos planejados” e “Montar com o take 3 e seguir”: Você segurou a decupagem e montou com o take que sobrou. O filme segue no prazo e no dinheiro. O Caio também reparou nisso, e passou a trazer as ideias novas direto para a produtora executiva.
Como o dia termina
Você foi para a ordem do dia primeiro.
Havia um diretor com uma ideia nova, uma atriz no camarim e um take perdido, e você abriu a planilha de amanhã. Passou 1h10 somando horas de saída e de chegada.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do problema que só aparece amanhã, às sete da manhã, num eletricista cansado. Produção é isso: fazer o filme caber nas horas e nas pessoas que ele tem.
Você foi para o set primeiro.
Você começou pelo set, onde o diretor queria mudar a cena mais importante do dia. Passou 45 min entre a imagem que ele via e a diária que o filme pagava.
Direção e fotografia vivem essa conversa: a ideia que aparece na hora pode ser a melhor do filme, e sempre custa o que estava planejado para outra coisa.
Você foi para o camarim primeiro.
Você começou pela cadeira de maquiagem, com a atriz e a pele dela. Passou 40 min entre a continuidade da personagem e o tempo do set.
Caracterização é isso: o rosto que o público vê precisa ser o mesmo todos os dias, mesmo quando a pessoa por baixo dele não está.
Você foi para a ilha primeiro.
Você começou pela ilha de edição, onde um take já filmado tinha sumido. Passou 50 min decidindo entre refilmar e montar com o que sobrou.
Montagem é trabalhar com o que existe, não com o que se lembra do set. Quem monta escolhe entre takes; nunca escolhe o take que não está lá.
As quatro portas do cinema
Fazer cinema não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo gosto por filme.
- Produção. Fazer o filme caber no dinheiro, nas horas e nas pessoas que ele tem.
- Direção e fotografia. Decidir como a cena vai ser vista, e defender isso contra o relógio.
- Maquiagem e caracterização. Construir o rosto da personagem e mantê-lo igual, diária após diária.
- Montagem e cor. Contar a história com o que foi filmado, inclusive quando falta o melhor pedaço.