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Um dia na pele de

A terça do laboratório de pesquisa

Você é a pesquisadora que coordena um laboratório de diabetes num instituto público de pesquisa, ligado a um hospital universitário. O laboratório roda um estudo clínico com um remédio novo, tem quatro doutorandos e guarda o genoma de 900 pacientes. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Pesquisa não se faz só no computador: os voluntários estão na recepção do estudo, a doutoranda está na bancada, os genomas estão na sala de bioinformática. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer ciência que se sustente, no prazo de quem financia e com o corpo de quem se voluntariou.

Profissões com um dia assim: Pesquisador Científico · Coordenador de Pesquisa Clínica · Especialista em Bioinformática

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A terça do laboratório de pesquisa: o dia por escrito

Você é a pesquisadora que coordena um laboratório de diabetes num instituto público de pesquisa, ligado a um hospital universitário. O laboratório roda um estudo clínico com um remédio novo, tem quatro doutorandos e guarda o genoma de 900 pacientes. Nesta terça-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Pesquisa não se faz só no computador: os voluntários estão na recepção do estudo, a doutoranda está na bancada, os genomas estão na sala de bioinformática. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Recepção do estudo: Doze voluntários, três fora da faixa

Hoje é dia de incluir voluntários no estudo do remédio novo. O protocolo, aprovado pelo comitê de ética, só aceita quem tem índice de massa corporal entre 25 e 40: peso dividido pela altura ao quadrado. A enfermeira pesou e mediu todo mundo de manhã e anotou na ficha. Ninguém fez a conta.

Quem entra fora do critério vira um desvio de protocolo, e o patrocinador audita cada um.

Ache os voluntários com índice de massa corporal abaixo de 25 ou acima de 40 (peso dividido pela altura ao quadrado). São esses três. Seu Marcos (40,8), Seu Renato (24,8) e Seu Wagner (40,6). O Seu Jorge engana: é o mais pesado da lista, mas com 1,85 m fica em 36,5, dentro da faixa. A Dona Graça fica em 39,95, por um fio. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você achou antes das 9h30. O Seu Marcos ainda não tinha tomado a primeira dose. Os três saíram do estudo com uma explicação e um agradecimento, e nenhum desvio foi para o relatório.
  • Entre 9h30 e 11h: Você achou depois das 9h30. O Seu Marcos tomou a primeira dose às 9h. O estudo vai ter de acompanhá-lo por segurança e reportar a inclusão errada ao patrocinador e ao comitê de ética.
  • Depois das 11h: A lista ficou para depois das 11h. Os três tomaram a primeira dose. O que quer que tenha sido feito depois, o estudo abriu a semana com três desvios de protocolo e três pessoas para acompanhar sem que os dados delas sirvam.

Consultório do estudo: O fígado da Dona Vera

A Dona Vera, 61 anos, está no estudo há dois meses. O exame de ontem mostrou a enzima do fígado três vezes acima do normal. O protocolo permite duas leituras: repetir em 48 horas e só então decidir, ou suspender agora e notificar o patrocinador como evento adverso grave.

Se for o remédio, é o primeiro sinal no estudo inteiro. Se não for, a notificação pode pausar a inclusão em todos os centros. Ela diz que se sente bem e que quer continuar.

  • Suspender o remédio e notificar como grave. Você suspende a medicação, explica à Dona Vera por que, e preenche a notificação em 24 horas. O patrocinador pede todos os exames dela. Dois outros centros recebem um aviso para olhar o fígado dos seus voluntários.
  • Repetir o exame em 48 horas, como o protocolo permite. Você pede o exame repetido para quinta e orienta a Dona Vera a ligar se sentir enjoo, dor do lado direito ou ficar com a pele amarela. Ela agradece e pega o ônibus de volta. Na ficha, você anota a decisão e o motivo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao consultório antes das 10h. A Dona Vera ainda não tinha tomado a dose do dia. A decisão foi tomada antes de mais um comprimido, qualquer que tenha sido.
  • Entre 10h e 13h: Você foi ao consultório depois das 10h. A Dona Vera tomou a dose do dia enquanto esperava, porque ninguém disse que não. A conversa começou com um comprimido a mais na conta.
  • Depois das 13h: O consultório ficou para depois das 13h. A Dona Vera esperou a manhã inteira e foi embora para buscar o neto na escola. O que quer que tenha sido decidido depois, foi dito a ela pelo telefone.

Bancada de biologia molecular: O resultado bom demais

A Júlia, doutoranda do terceiro ano, chega com o gel na mão: o gene que vocês estudam há quatro anos aparece ligado exatamente como a hipótese previa. É o resultado que faltava para o resumo do congresso internacional, que fecha amanhã.

No canto do gel, o controle negativo também tem uma banda fraca. Não devia ter nada ali. Repetir leva três semanas.

  • Repetir o experimento antes de mostrar a alguém. Você diz à Júlia que o controle precisa estar limpo antes de o gel sair do laboratório. Ela concorda, sem olhar para você, e anota os reagentes que vai pedir. O resumo não vai. A bolsa dela acaba em dez meses.
  • Mandar o resumo como preliminar e repetir em paralelo. Vocês escrevem o resumo com a palavra preliminar duas vezes e uma frase sobre o controle. A Júlia manda às 23h. A repetição começa amanhã. Se o resultado não se confirmar, ela vai apresentar em Boston um dado que não existe mais.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à bancada antes das 11h. A Júlia ainda estava com o gel na mão, sem ter mostrado a ninguém. A conversa foi entre a orientadora e a aluna, antes de o laboratório inteiro ter opinião.
  • Entre 11h e 15h: Você foi à bancada depois das 11h. A Júlia já tinha mostrado o gel no grupo do laboratório e recebido doze mensagens de parabéns. Você chegou para falar de um controle que ninguém tinha olhado.
  • Depois das 15h: A bancada ficou para depois das 15h. A Júlia passou a tarde escrevendo o resumo sozinha, esperando a sua revisão. O que quer que tenha sido decidido depois, ela ouviu com o texto pronto na tela.

Sala de bioinformática: Novecentos genomas e um termo de consentimento

Um consórcio internacional quer juntar os genomas de 30 laboratórios para achar genes do diabetes que nenhum acha sozinho. Pede os 900 genomas do seu banco, sem nome, até o fim do mês. O bioinformata do laboratório já preparou os arquivos.

O termo que os pacientes assinaram, em 2019, diz que o material seria usado "nesta pesquisa". O comitê de ética leva de dois a quatro meses para avaliar um pedido novo.

  • Mandar os dados sem nome agora. Os arquivos sobem no fim da tarde, sem nome, sem data de nascimento, sem cidade. O consórcio confirma o recebimento e põe o instituto na lista de autores. O bioinformata guarda o e-mail com a sua autorização numa pasta separada.
  • Pedir autorização ao comitê de ética primeiro. Você escreve ao comitê de ética e responde ao consórcio que os dados chegam quando a autorização sair. O consórcio agradece e diz que a análise começa em dezembro, com ou sem o Brasil.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi à sala de bioinformática antes do meio-dia. O bioinformata ainda estava conferindo os arquivos. Deu para olhar junto com ele o que exatamente ia sair, campo por campo.
  • Entre 12h e 16h: Você foi à sala de bioinformática depois do meio-dia. O consórcio mandou um segundo e-mail, com cópia para o diretor do instituto. Você decidiu com alguém de cima esperando a resposta.
  • Depois das 16h: Os genomas ficaram para depois das 16h. O bioinformata passou a tarde com os arquivos prontos e sem resposta. O que quer que tenha sido decidido depois, o consórcio já tinha anotado o Brasil como pendente.

Copa: Café, e a pesquisa vista de fora

Um técnico do hospital, que veio buscar amostras, conversa com a enfermeira do estudo.

“…pesquisa é bonito, mas remédio quem faz é a indústria. Aqui só se escreve artigo.”

O remédio do seu estudo é da indústria. Os voluntários, os dados e a decisão sobre a Dona Vera são daqui. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a enfermeira já vai começar a dar as primeiras doses. Alguém conferiu a lista?
  • …a Júlia tá com um gel que, se for verdade, é a tese inteira dela.
  • …a Dona Vera perguntou se demora. Ela precisa buscar o neto meio-dia.
  • …o pessoal do consórcio mandou e-mail de novo. Os arquivos já estão prontos.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Suspender o remédio e notificar como grave” e “Pedir autorização ao comitê de ética primeiro”: Na mesma terça, o laboratório notificou um evento grave e pediu ao comitê de ética para usar dados antigos. O mesmo comitê vai receber os dois papéis na mesma semana, com o seu nome em cima.
  • Se você escolheu “Mandar o resumo como preliminar e repetir em paralelo” e “Mandar os dados sem nome agora”: Um resumo com o controle sujo e 900 genomas com o termo lido largo saíram do laboratório no mesmo dia. As duas coisas andam rápido agora, e as duas podem voltar.
  • Se você escolheu “Repetir o experimento antes de mostrar a alguém” e “Repetir o exame em 48 horas, como o protocolo permite”: Você pediu à Júlia três semanas para ter certeza e deu à Dona Vera 48 horas para ter certeza. As duas esperas são do mesmo tamanho na sua cabeça, e de tamanhos muito diferentes na vida delas.
  • Se você escolheu “Suspender o remédio e notificar como grave” e “Mandar o resumo como preliminar e repetir em paralelo”: O patrocinador está pedindo todos os exames da Dona Vera e a Júlia vai a Boston falar do gene que o remédio dele tenta alcançar. Alguém da empresa vai estar na plateia.

Como o dia termina

Você foi para a lista primeiro.

Havia uma voluntária com o fígado alterado, uma doutoranda com o resultado da tese e um pedido de 900 genomas, e você começou pela lista que ninguém estava cobrando. Passou 1h10 dividindo peso por altura ao quadrado.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do erro que entra no estudo e não sai mais. Coordenar pesquisa clínica é essa conta, feita antes da primeira dose.

Você foi para a Dona Vera primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a pessoa que tomava o remédio. Passou 45 min decidindo entre proteger ela agora e não parar o estudo à toa.

Na pesquisa clínica, o voluntário vem antes do dado. A dificuldade é que os dois quase nunca pedem a mesma coisa no mesmo dia.

Você foi para a bancada primeiro.

Você começou pelo gel da Júlia, onde ninguém estava em risco e uma tese estava em jogo. Passou 50 min olhando para uma banda fraca no canto de um controle.

Pesquisa científica é isso: a pergunta de anos, o resultado que parece a resposta, e a decisão sobre o quanto ele precisa ser verdade antes de sair da sala.

Você foi para os genomas primeiro.

Havia voluntários, uma doutoranda e uma paciente esperando, e você foi primeiro decidir o que fazer com 900 genomas. Passou 40 min entre um consórcio e um termo assinado em 2019.

Na bioinformática, o dado é de alguém. Quem cuida dele decide, todo dia, quanto ele pode andar sem a pessoa saber.

As três portas da pesquisa

Fazer pesquisa não é uma profissão só, são várias, e as deste dia se separam pelo tipo de problema, não pela doença estudada.

  • Pesquisa científica. Perseguir uma pergunta por anos e decidir quando um resultado é forte o bastante para sair da sala.
  • Pesquisa clínica. Testar tratamento em gente, com protocolo, comitê e a pessoa antes do dado.
  • Bioinformática. Cuidar de dados biológicos em massa: o que eles dizem e até onde podem ir.