🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

O P&D de uma indústria de genéricos

Você é farmacêutico de pesquisa e desenvolvimento numa indústria de medicamentos genéricos com 400 funcionários: 12 produtos em estudo, e nenhum chega à farmácia sem antes provar, no papel e na bancada, que funciona igual ao de referência e aguenta a prateleira. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O P&D não fica só no laboratório: o lote piloto está na linha, o prazo está na diretoria, a auditoria está na garantia da qualidade. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Ter pressa para chegar primeiro sem pular a prova de que o remédio aguenta.

Profissões com um dia assim: Farmacêutico de P&D

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O P&D de uma indústria de genéricos: o dia por escrito

Você é farmacêutico de pesquisa e desenvolvimento numa indústria de medicamentos genéricos com 400 funcionários: 12 produtos em estudo, e nenhum chega à farmácia sem antes provar, no papel e na bancada, que funciona igual ao de referência e aguenta a prateleira. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O P&D não fica só no laboratório: o lote piloto está na linha, o prazo está na diretoria, a auditoria está na garantia da qualidade. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Laboratório de desenvolvimento: Todos dentro da faixa

Os doze produtos do portfólio completaram seis meses na câmara a 40 °C, o estudo acelerado que diz quanto o remédio aguenta na prateleira. O técnico deixou na sua bancada a planilha com o teor de ativo de cada um no começo e agora.

Todos terminaram entre 90 e 110, a faixa da especificação, e a planilha está marcada "tudo conforme". Só que a regra do estudo não olha só o fim: uma queda de mais de 5 pontos desde o próprio início já é mudança significativa.

Ache os produtos que caíram mais de 5 pontos desde o próprio início. São esses três: cetoconazol, aciclovir e amoxicilina. Terminaram bonitos, perto de 100, porque começaram altos, e caíram mais de 5 pontos no caminho. A dexametasona, que terminou mais baixo de todos, caiu menos. Com esses três, não dá para pedir 24 meses de validade: precisam de reformulação ou de embalagem melhor. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você fechou a planilha antes das 10h30. Deu tempo de pedir a compras que segurasse o ativo dos lotes de validação do cetoconazol e do aciclovir. O dinheiro ficou no caixa até a fórmula nova existir.
  • Entre 10h30 e 14h: Você fechou a planilha depois das 10h30. Compras já tinha fechado o pedido do ativo dos dois cremes: R$ 80 mil de insumo para lotes que agora vão esperar uma reformulação. O ativo tem validade, e o relógio dele começou a correr.
  • Depois das 14h: A planilha ficou para depois das 14h. A planilha foi para a reunião de portfólio de sexta com o carimbo "tudo conforme". O que quer que tenha sido visto depois, já tinha um cronograma de lançamento montado em cima dela.

Sala da diretoria: Chegar primeiro na fila

A patente do gel anti-inflamatório que é o maior projeto do ano vence em março. Quem protocolar o genérico primeiro na Anvisa tende a chegar primeiro às farmácias, e o diretor ouviu num congresso que dois concorrentes estão quase prontos.

O dossiê pode ir este mês, com os dados que existem, pedindo validade de 12 meses. Com mais três meses de estudo, pede 24. O diretor quer a sua posição, não a dele.

  • Protocolar agora, com 12 meses de validade. O dossiê vai este mês. O diretor avisa a matriz que o gel está na fila. Na farmácia, um produto com 12 meses de validade chega com oito na prateleira, e o comercial já sabe que vai ouvir pedido de devolução. A extensão para 24 meses vira um segundo processo na Anvisa, mais adiante.
  • Esperar três meses e pedir 24. Você mostra o que falta e por que falta. O diretor aceita e anota a data nova no cronograma. Se os dois concorrentes protocolarem antes, o gel chega à farmácia em terceiro, com a validade mais longa dos três.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você entrou antes das 10h. O diretor ainda não tinha falado com a matriz. A conversa aconteceu antes de qualquer data virar promessa.
  • Entre 10h e 13h30: Você entrou depois das 10h. O diretor já tinha dado à matriz uma data para o protocolo. O que você dissesse ia confirmar ou desfazer uma palavra dada sem você.
  • Depois das 13h30: A diretoria ficou para depois das 13h30. O diretor mandou um e-mail com a pergunta e prazo até o fim do dia. O que quer que tenha sido decidido, foi decidido por escrito, sem os dados na mesa entre vocês.

Linha de envase: O creme que na bancada não tinha ar

É o primeiro lote piloto do creme de cetoconazol: 200 quilos no tanque da linha, que a produção emprestou ao P&D só até as 13h. Na bancada, com 2 quilos, o creme saía liso. No tanque, saiu aerado.

O operador mostra a balança: bisnagas de 30 gramas pesando de 27 a 31. Ar no lugar de creme. A próxima janela livre da linha é daqui a três semanas.

  • Parar, ajustar o vácuo e refazer outro dia. O lote vai para descarte e você reescreve a ordem de fabricação com mais tempo de vácuo e o misturador mais lento. A produção retoma a linha. Os três lotes piloto que o dossiê do creme precisa ficam três semanas mais longe.
  • Envasar, registrar o desvio e estudar o ar à parte. As bisnagas são envasadas e pesadas uma a uma, e o desvio vai escrito na ficha do lote. O lote entra na câmara de estabilidade com o resto. Se o ar mexer no teor do ativo, você vai saber em seis meses, com o lote já no estudo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à linha antes das 9h30. O envase mal tinha começado. O que fosse decidido valia para o lote quase inteiro, não para o que já estava nas caixas.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi à linha depois das 9h30. Metade das bisnagas já estava cheia quando você chegou. Qualquer decisão era sobre um lote pela metade, e a outra metade já estava pesada e encaixotada.
  • Depois das 12h: A linha ficou para depois do meio-dia. O operador seguiu a ordem de fabricação até o fim e a produção pediu a linha de volta às 13h. Quem decidiu o lote foi o papel que estava pendurado no tanque.

Garantia da qualidade: O pico reintegrado

A garantia da qualidade fez a auditoria interna do mês e achou, no histórico do cromatógrafo, que a Bianca, analista do seu time, reintegrou os picos de quatro injeções de um ensaio de dissolução do omeprazol. Antes, o resultado reprovava. Depois, aprovou.

Não há justificativa escrita. A Bianca diz que a linha de base estava torta e que todo mundo faz assim. A auditora quer saber o que o P&D vai fazer.

  • Invalidar o resultado e repetir o ensaio. O resultado sai do sistema e o ensaio volta para a fila: duas semanas. A auditora fecha o achado no mesmo dia. A Bianca sai da sala sem dizer nada, e na bancada passa a pedir para outra pessoa conferir cada integração dela.
  • Pedir a justificativa por escrito e revisar com ela. Vocês abrem os quatro cromatogramas juntos. Em três, a linha de base estava mesmo torta e a reintegração tem explicação técnica; no quarto, é discutível. A Bianca escreve a justificativa, você assina a revisão, e o achado fica aberto até a garantia da qualidade aceitar o que está escrito.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à garantia da qualidade antes das 11h. O relatório da auditoria ainda estava em rascunho. A sua resposta entrou junto com o achado, não depois dele.
  • Entre 11h e 15h: Você foi à garantia da qualidade depois das 11h. O achado já estava escrito no relatório, com o nome do ensaio e da analista. O que você decidisse ia aparecer como resposta a uma acusação, não como parte da investigação.
  • Depois das 15h: A auditoria ficou para depois das 15h. O relatório fechou às 15h com o achado marcado "sem resposta do P&D". O que quer que tenha sido feito depois, a diretoria leu primeiro essa linha.

Refeitório: Café, e o P&D visto de fora

Duas pessoas do comercial estão na fila do café.

“…três anos nesse gel. Três anos! E ainda não tem nada para vender.”

O gel passou três anos provando que é igual ao de referência e que aguenta dois verões numa prateleira sem ar-condicionado. Isso não aparece em nenhuma tabela de vendas. Quinze minutos depois, você volta com isso: para quem vende, o seu trabalho é o tempo em que não existe produto.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …compras vai fechar o ativo do cetoconazol e do aciclovir ainda hoje.
  • …a produção quer a linha de volta à uma. O creme do P&D tá lá desde as sete.
  • …o diretor voltou do congresso dizendo que tem concorrente quase protocolando o gel.
  • …a auditoria achou alguma coisa no cromatógrafo do P&D.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Protocolar agora, com 12 meses de validade” e “Envasar, registrar o desvio e estudar o ar à parte”: Na mesma quinta, um dossiê foi para a Anvisa com validade curta e um lote piloto foi para a câmara com desvio registrado. Os dois vão voltar à sua mesa: um como exigência da Anvisa, o outro como resultado de estabilidade.
  • Se você escolheu “Esperar três meses e pedir 24” e “Parar, ajustar o vácuo e refazer outro dia”: Você segurou o dossiê do gel por três meses e mandou refazer o lote do creme daqui a três semanas. O cronograma que o diretor apresenta à matriz andou para trás duas vezes na mesma quinta, e as duas datas novas têm o seu nome.
  • Se você escolheu “Invalidar o resultado e repetir o ensaio” e “Envasar, registrar o desvio e estudar o ar à parte”: Você invalidou o resultado da Bianca por falta de justificativa escrita e envasou o lote aerado com um desvio escrito. No mesmo dia, ela viu um papel pesar contra o ensaio dela e outro segurar o seu lote. Ela vai perguntar a diferença.
  • Se você escolheu “Pedir a justificativa por escrito e revisar com ela” e “Protocolar agora, com 12 meses de validade”: Você assinou a revisão dos picos reintegrados e mandou o dossiê com os dados que existiam. Duas assinaturas suas na mesma tarde, em documentos que a Anvisa pode pedir para ver numa inspeção.

Como o dia termina

Você foi para a planilha primeiro.

Havia um diretor esperando posição, um lote piloto com ar e uma auditoria aberta, e você começou pela planilha que já estava marcada "tudo conforme". Passou 1h30 refazendo, linha por linha, a conta que ninguém tinha pedido.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do número antes da conversa. No desenvolvimento analítico, o trabalho é esse: provar quanto o remédio aguenta, inclusive quando a resposta atrasa o lançamento.

Você foi para a diretoria primeiro.

Você começou pela conversa em que a pressa e o prazo de validade estavam na mesma mesa. Passou 45 min decidindo quanto vale chegar antes na fila da Anvisa.

Quem trabalha com assuntos regulatórios vive essa conta: o dossiê é a ponte entre o laboratório e a farmácia, e cada mês a mais nele é um mês a menos no mercado.

Você foi para a linha primeiro.

Você começou pelo tanque, onde um creme que saía liso com 2 quilos saiu cheio de ar com 200. Passou 1h00 entre a balança das bisnagas e a ordem de fabricação.

Desenvolver formulação é isso: a receita que funciona na bancada tem que aguentar o tanque da fábrica, e é na linha que se descobre o que o caderno não disse.

Você foi para a auditoria primeiro.

Você começou pelo achado que tinha o nome de uma pessoa do seu time. Passou 40 min decidindo entre o que estava escrito e o que a Bianca dizia que tinha visto.

No laboratório farmacêutico, um resultado só vale se qualquer pessoa conseguir refazer o caminho até ele. Cuidar disso é cuidar do dado, e às vezes é cuidar de quem gerou o dado.

As três portas do P&D farmacêutico

P&D farmacêutico não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo remédio.

  • Desenvolvimento analítico. Medir o remédio e o tempo: provar com dado quanto ele aguenta, e que o dado é confiável.
  • Desenvolvimento de formulação. Criar a fórmula e levá-la da bancada ao tanque da fábrica sem que ela mude no caminho.
  • Assuntos regulatórios. Transformar anos de laboratório num dossiê que a Anvisa aprova, no tempo que o mercado espera.