Um dia na pele de
Os contratos da fintech cripto
Você desenvolve os contratos inteligentes de uma fintech de empréstimo: o cliente deixa ether guardado num contrato e pega reais emprestados, sem banco no meio. São 9 mil empréstimos abertos e R$ 60 milhões em garantia. Esta madrugada, o ether caiu de R$ 15.000 para R$ 12.000. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
O código está na sua tela, mas os problemas estão na sala de reunião, na ilha do produto, na central de atendimento. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Mexer num dinheiro que, depois de movido, não volta.
Profissões com um dia assim: Desenvolvedor Blockchain · Especialista em DeFi
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Os contratos da fintech cripto: o dia por escrito
Você desenvolve os contratos inteligentes de uma fintech de empréstimo: o cliente deixa ether guardado num contrato e pega reais emprestados, sem banco no meio. São 9 mil empréstimos abertos e R$ 60 milhões em garantia. Esta madrugada, o ether caiu de R$ 15.000 para R$ 12.000. Nesta quarta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
O código está na sua tela, mas os problemas estão na sala de reunião, na ilha do produto, na central de atendimento. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Sua mesa: O robô que não viu a queda
A regra do contrato é simples: a dívida pode chegar a 80% do valor da garantia. Passou disso, a posição é liquidada: o contrato vende a garantia e paga a dívida, antes que ela valha menos do que o empréstimo.
O robô que faz isso diz que nenhuma posição passou do limite. Só que o ether caiu para R$ 12.000 de madrugada, e o robô lê o preço de um oráculo que não se mexe desde as 4h.
Ache as posições que, com o ether a R$ 12.000, já passaram do limite. São essas três. Com o ether a R$ 12.000, cada uma deve mais do que 80% da garantia. Com o preço parado do oráculo, R$ 15.000, todas pareciam folgadas. O robô fez a conta certa com o número errado. Cada tentativa errada custa 6 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você achou antes das 10h30. As três foram liquidadas com a garantia ainda cobrindo a dívida. Ninguém do lado de quem deposita perdeu nada, e o oráculo foi trocado antes de o mercado abrir nos Estados Unidos.
- Entre 10h30 e 13h: Você achou depois das 10h30. O ether continuou caindo enquanto o painel dizia que estava tudo bem. Vender a garantia na pressa, num mercado em queda, não pagou a dívida inteira da #0958, e o pool engoliu a diferença.
- Depois das 13h: O painel ficou para depois das 13h. Com o preço caindo e o robô lendo o número da madrugada, as três posições passaram a dever mais do que a garantia valia. A diferença, R$ 6 mil, saiu da reserva do protocolo: o dinheiro que existe para esse tipo de dia.
Ilha do produto: O contrato que não se corrige
A versão 2 do contrato de empréstimo vai ao ar às 17h, com campanha marcada numa corretora parceira. Às 8h chegou o relatório da auditoria: um achado médio. O cálculo dos juros arredonda a favor de quem pega emprestado, menos de um centavo por operação. Um robô repetindo isso 100 mil vezes transforma o centavo em dinheiro de verdade.
O Tiago está no quadro branco. "Depois de publicado, contrato não se edita. Para corrigir, só fazendo um novo e mudando todo mundo para ele."
- Publicar hoje com teto por carteira. Você põe um teto de R$ 50 mil por carteira e o contrato vai ao ar às 17h. A campanha sai. O arredondamento continua lá, pequeno demais para valer um robô, e vai ficar até a versão 3, porque contrato publicado não muda.
- Adiar o deploy e corrigir o arredondamento. O Tiago corrige em uma hora; a auditoria pede três dias para revisar a correção. A corretora tira a campanha do ar e pergunta, por escrito, se a próxima data é firme.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 12h: Você foi à ilha antes do meio-dia. Deu tempo de ligar para o auditor e entender o achado de verdade, não pelo resumo, antes de decidir qualquer coisa.
- Entre 12h e 16h: Você foi à ilha depois do meio-dia. A corretora já tinha mandado o e-mail da campanha para os clientes dela. Qualquer decisão agora vinha depois de uma promessa feita em nome da empresa.
- Depois das 16h: O deploy ficou para depois das 16h. O Tiago passou a tarde com o contrato pronto e sem resposta. O que quer que tenha sido decidido, foi com uma hora de margem, e ninguém releu o código com calma depois disso.
Sala de reunião: Os R$ 8 milhões do fundo
A Renata representa um fundo que quer depositar R$ 8 milhões no pool, o dinheiro que a fintech empresta. Tem uma condição: que o contrato passe a emprestar até 90% do valor da garantia, em vez de 80%. Mais gente pega empréstimo, o rendimento de quem deposita sobe, e o fundo entra.
O CEO já disse a ela que "parece razoável". A regra vale para os 9 mil empréstimos, não só para os do fundo.
- Aceitar os 90% e o depósito. O fundo deposita R$ 8 milhões e o rendimento do pool sobe. Com 90%, uma queda como a desta madrugada liquida o triplo de posições, e o robô de liquidação tem que funcionar sempre, inclusive quando o oráculo para.
- Manter os 80% e recusar o depósito. A Renata agradece e diz que vai para o concorrente, que aceitou 90% na semana passada. O pool continua do tamanho que era. O CEO fica sabendo por ela, não por você.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você entrou antes das 11h. A Renata ainda estava com o café na mão. Deu para mostrar a ela, com calma, o que acontece com cada limite num dia de queda.
- Entre 11h e 14h: Você entrou depois das 11h. Ela já tinha esperado uma hora e mandado mensagem ao CEO. Você entrou numa conversa em que o chefe já tinha dito "acho que dá".
- Depois das 14h: O fundo ficou para depois das 14h. A Renata saiu às duas para outro compromisso e mandou a proposta por e-mail, com o CEO em cópia. O que quer que tenha sido respondido, foi por escrito e com o chefe lendo.
Central de atendimento: O dinheiro que ninguém tira
O Seu Valdir, 67 anos, quis pagar o empréstimo e mandou R$ 4 mil em dólar digital direto para o endereço do contrato, em vez de pagar pelo app. O contrato não tem função para devolver um envio assim. O dinheiro está lá, visível para qualquer um na blockchain, e ninguém consegue tirar.
A Ana está com ele na linha pela terceira vez. "Ele quer falar com quem fez o contrato."
- Devolver os R$ 4 mil do caixa da empresa. A empresa paga o empréstimo dele e assume o prejuízo. O Seu Valdir agradece, emocionado. Na semana seguinte, dois clientes escrevem dizendo que também mandaram para o endereço errado, e um deles mandou para outra rede, onde a fintech nem tem contrato.
- Explicar que o contrato não devolve. Você mostra a ele a transação no explorador público, onde o dinheiro aparece parado. Ele desliga dizendo que vai ao Procon. No dia seguinte, o Tiago abre uma tarefa: na próxima versão, uma saída para depósito errado, com duas assinaturas para usar.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você foi à central antes das 11h. O Seu Valdir ainda não tinha contado a história para ninguém. Deu para explicar antes de ela virar outra.
- Entre 11h e 15h: Você foi à central depois das 11h. Ele já tinha escrito no grupo de cripto da cidade dele que a empresa "sumiu com o dinheiro". A conversa começou pelo print.
- Depois das 15h: O Seu Valdir ficou para depois das 15h. A Ana atendeu ele mais duas vezes à tarde sem ter o que dizer. O que quer que tenha sido resolvido, ele passou o dia achando que ninguém na empresa sabia onde estava o dinheiro dele.
Copa: Café, e a blockchain vista de fora
Um analista do financeiro está na pia, falando com a estagiária.
“…blockchain é para quem quer ficar rico rápido. Meu cunhado perdeu tudo num token aí.”
Nada do que você faz hoje é sobre ficar rico: é dívida, garantia e um código que não perdoa erro. Mas o cunhado dele existe, e é para gente como ele que o contrato tem que funcionar. Quinze minutos depois, você volta para a mesa com isso na cabeça.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o painel tá todo verde, mas o ether caiu vinte por cento de madrugada.
- …a corretora já mandou a arte da campanha das cinco.
- …a moça do fundo tá na sala de reunião desde as nove.
- …a Ana tá com aquele senhor no telefone de novo.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Publicar hoje com teto por carteira” e “Aceitar os 90% e o depósito”: O teto de R$ 50 mil por carteira que você pôs no contrato novo barrou o depósito do fundo. Os R$ 8 milhões tiveram de entrar picados em 160 carteiras, e a Renata perguntou se a regra era para valer.
- Se você escolheu “Explicar que o contrato não devolve” e “Aceitar os 90% e o depósito”: De manhã, o contrato não abria exceção para os R$ 4 mil do Seu Valdir. À tarde, a regra do contrato mudou para caber um fundo de R$ 8 milhões. As duas coisas estão no canal público da comunidade, uma embaixo da outra.
- Se você escolheu “Devolver os R$ 4 mil do caixa da empresa” e “Adiar o deploy e corrigir o arredondamento”: Na mesma quarta, a empresa pagou do próprio caixa um erro que não era dela e adiou uma entrega que era. Na reunião de sexta, o CEO pôs as duas coisas no mesmo slide.
- Se você escolheu “Devolver os R$ 4 mil do caixa da empresa” e “Manter os 80% e recusar o depósito”: Você devolveu R$ 4 mil a um cliente e recusou R$ 8 milhões de um fundo, no mesmo dia. O Seu Valdir contou no grupo dele. A Renata contou ao CEO.
Como o dia termina
Você foi para a conta primeiro.
Havia um contrato para ir ao ar, um fundo na sala e um senhor com o dinheiro preso, e você abriu o painel que dizia que estava tudo bem. Passou 1h40 refazendo, com o preço de agora, a conta que o robô fazia com o preço de antes.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que o sistema não estava vendo. Em DeFi, o protocolo é só matemática, e a matemática depende do número que entra nela.
Você foi para a regra primeiro.
Você começou pela sala de reunião, onde um fundo queria mudar um número que vale para todo mundo. Passou 45 min decidindo quanto risco cabe num pool que não é só seu.
Em DeFi, mudar um parâmetro é mudar o risco de milhares de pessoas que não estavam na sala, e que vão descobrir a mudança lendo o contrato.
Você foi para o código primeiro.
Você começou pela ilha do produto, com um achado da auditoria e um deploy marcado. Passou 1h00 decidindo se um defeito de menos de um centavo podia ir ao ar.
Quem escreve contrato inteligente vive com isso: o código publicado não se corrige, e todo atalho de hoje fica lá, público, enquanto houver dinheiro dentro.
Você foi para a pessoa primeiro.
Você começou pela central, onde um senhor de 67 anos tinha mandado dinheiro para onde não devia. Passou 40 min explicando, ou resolvendo, um erro que o código não previa.
Em blockchain, o erro de quem usa também não se desfaz. Quem escreve o contrato decide antes, no código, se vai existir alguma saída.
As duas portas de Blockchain
Blockchain não é uma profissão só, são duas, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo assunto.
- Desenvolvimento de contratos. Escrever o código que guarda o dinheiro dos outros, sabendo que depois de publicado ele não muda.
- Finanças descentralizadas. Desenhar e vigiar as regras de um banco sem banqueiro: garantia, juros, liquidação e o preço que entra em tudo isso.