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Um dia na pele de

A segunda-feira de uma produtora pequena

Você é a produtora executiva de uma produtora audiovisual pequena, instalada num galpão com set, camarim e uma sala de cor. Nesta segunda-feira, a casa faz três coisas ao mesmo tempo: filma um comercial de tênis com a skatista Bia Torres, entrega o episódio 3 de uma série documental para uma plataforma de streaming e fecha a prestação de contas do edital que pagou o documentário do ano passado. Quatro coisas pedem você, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala da produção: está no set, no camarim, na sala de cor. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Três trabalhos no mesmo galpão, e o dinheiro de todos sai do mesmo caixa.

Profissões com um dia assim: Produtor Executivo de Cinema · Operador de Câmera · Colorista de Cinema

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A segunda-feira de uma produtora pequena: o dia por escrito

Você é a produtora executiva de uma produtora audiovisual pequena, instalada num galpão com set, camarim e uma sala de cor. Nesta segunda-feira, a casa faz três coisas ao mesmo tempo: filma um comercial de tênis com a skatista Bia Torres, entrega o episódio 3 de uma série documental para uma plataforma de streaming e fecha a prestação de contas do edital que pagou o documentário do ano passado. Quatro coisas pedem você, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve na sala da produção: está no set, no camarim, na sala de cor. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala da produção: O que foi pago fora da vigência

O documentário do ano passado foi pago por um edital estadual de audiovisual. A prestação de contas fecha hoje, às 17h, no sistema do fundo. Se não fechar, a produtora fica inadimplente e não pode se inscrever no edital novo, que encerra na sexta.

A regra do fundo é seca: só conta a despesa paga dentro da vigência do projeto, de 3 de março a 31 de agosto. O que foi pago fora volta para o caixa da produtora, com o dinheiro dela.

Ache as despesas pagas fora da vigência (3/3 a 31/8). São essas quatro: o seguro, pago antes de 3 de março, e a mixagem, a cor e os cartazes, pagos em setembro. Somam R$ 29.730,00 que saem do caixa da produtora. A mixagem engana: a nota é de agosto, o pagamento não. O aluguel do dia 3 e o cachê do dia 31 estão dentro, por um dia. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você fechou antes das 11h. Sobrou tempo para o contador revisar o lote inteiro antes do envio. A prestação entrou no sistema ainda de manhã, e a inscrição no edital novo ficou livre.
  • Entre 11h e 15h: Você fechou depois das 11h. A prestação entrou no sistema, mas o contador só viu o lote pela metade. Se o fundo pedir explicação de alguma linha, quem responde é você, de memória.
  • Depois das 15h: A prestação ficou para depois das 15h. O sistema do fundo ficou lento a tarde inteira, como fica em todo dia de prazo. O que quer que tenha sido enviado depois, foi enviado correndo, sem ninguém para conferir uma segunda vez.

Set: Um salto, duas câmeras, uma câmera

O plano principal do comercial é a Bia saltando do corrimão da rampa, filmado de dois ângulos ao mesmo tempo: a câmera A de frente, a câmera B de lado, em câmera lenta. A câmera B desligou com erro no sensor e não volta.

O operador, Jonas, diz que a locadora manda outra em uma hora e meia. Ou ele filma tudo com a câmera A, mudando de lugar entre um salto e outro, e a Bia salta o dobro de vezes. A Bia está contratada até as 13h.

  • Pedir a câmera reserva à locadora. A câmera chega às dez e pouco, Jonas e o assistente a montam em vinte minutos. Os dois ângulos saem no mesmo salto, como estava no roteiro. A diária da câmera extra, R$ 3.800, não estava no orçamento do comercial.
  • Filmar só com a câmera A. Jonas filma de frente, muda o tripé, filma de lado. A Bia salta catorze vezes em vez de sete. Os dois ângulos existem, mas nunca do mesmo salto: na montagem, o corte entre eles vai mostrar dois movimentos parecidos, não um.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você foi ao set antes das 8h30. A Bia ainda estava se aquecendo na rampa. Qualquer caminho começava com ela inteira e com a manhã toda pela frente.
  • Entre 8h30 e 10h30: Você foi ao set depois das 8h30. A Bia já tinha saltado quatro vezes para testar a luz. O tornozelo esquerdo, que ela enfaixa desde o campeonato, começou a pedir pausa.
  • Depois das 10h30: O set ficou para depois das 10h30. Jonas e o diretor do comercial resolveram entre eles o que dava, sem a produção. O que quer que tenha sido decidido depois, a manhã da Bia, que acaba às 13h, já estava pela metade.

Camarim: Uma frase de oito palavras

A agência chegou hoje com uma frase nova para o fim do comercial: a Bia olhando para a câmera e dizendo "é com ele que eu ando todo dia". O cliente aprovou ontem à noite.

O agente da Bia está no camarim com o contrato aberto. Ele mostra a cláusula: imagem, sim; fala, não. E a Bia, baixinho, diz que anda de tênis de outra marca, a do patrocínio de skate dela.

  • Cortar a fala e filmar só imagem. O agente guarda o contrato, a Bia relaxa na cadeira. A atendimento da agência liga para o cliente do corredor, e você ouve a palavra "desapontado" duas vezes. O comercial vai fechar com o logo, sem a frase.
  • Negociar um aditivo para a fala. O agente pede R$ 25 mil e troca "todo dia" por "quando eu treino". A agência liga para o cliente, o cliente aceita, o jurídico de cada lado manda uma versão. Uma hora depois a frase está assinada, e a Bia vai para o set com ela decorada.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h: Você foi ao camarim antes das 8h. A Bia ainda estava na maquiagem e o agente ainda não tinha ligado para ninguém. A conversa ficou dentro do camarim.
  • Entre 8h e 9h30: Você foi ao camarim depois das 8h. O agente já tinha mandado mensagem para o patrocinador de skate da Bia perguntando se podia. Agora havia uma terceira empresa esperando resposta.
  • Depois das 9h30: O camarim ficou para depois das 9h30. A atendimento da agência subiu ao camarim sozinha e a conversa esquentou sem a produção. O que quer que tenha sido decidido depois, a Bia chegou ao set sabendo que o assunto dela tinha esperado.

Sala de cor: A noite escura demais

O relatório de qualidade da plataforma chegou às 6h: o episódio 3 da série voltou. A cena da pescaria à noite, sete minutos, tem "pretos esmagados e perda de detalhe nas sombras". A entrega final é hoje, às 18h.

A colorista, Lena, coloriu aquela noite escura de propósito, a pedido da diretora: o rio quase invisível, só a lanterna. Ela diz que dá para abrir as sombras em três horas, ou escrever à plataforma explicando que é intenção da diretora e pedir que aceitem assim.

  • Abrir as sombras e reenviar. Lena trabalha três horas na cena. O rio aparece, as árvores aparecem, a lanterna perde força. O episódio passa na plataforma às 17h40. A diretora assiste ao arquivo novo à noite e manda uma única palavra: "ok".
  • Defender a noite com uma carta da diretora. A diretora escreve dois parágrafos sobre a escuridão da cena, Lena anexa as medições. A plataforma responde que vai "avaliar", sem prazo. O episódio 3 sai da grade de lançamento até a resposta, e a série estreia com dois episódios em vez de três.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi à sala de cor antes do meio-dia. Ainda havia tarde inteira antes das 18h. A decisão saiu da sala de cor sem relógio em cima de ninguém.
  • Entre 12h e 15h: Você foi à sala de cor depois do meio-dia. Lena tinha esperado a manhã toda sem mexer na cena. Qualquer caminho agora corria contra as 18h, e a sala de cor não tem atalho.
  • Depois das 15h: A sala de cor ficou para depois das 15h. A plataforma mandou um segundo aviso às 15h10 perguntando se a entrega estava mantida. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com a resposta já atrasada.

Catering: Café, e a produtora vista do catering

O assistente de câmera e o motorista da locadora dividem um pão de queijo na mesa do catering.

“…essa câmera B já voltou com erro no mês passado. Eles sabem. Mandam assim mesmo porque ninguém reclama por escrito.”

Você não perguntou nada. Saiu sabendo de onde vem a câmera da próxima diária, e quinze minutos mais tarde.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o contador ligou. Perguntou se a prestação sai hoje ou se ele pode ir embora às cinco.
  • …a Bia tá saltando pra testar luz. O Jonas tá esperando alguém dizer o que fazer com a B.
  • …o agente da Bia tá com o contrato aberto no camarim. A moça da agência não para de ligar.
  • …a Lena tá na sala de cor desde as seis. Disse que não mexe na noite sem alguém mandar.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Pedir a câmera reserva à locadora” e “Negociar um aditivo para a fala”: Uma hora e meia esperando a câmera e uma hora esperando o aditivo saíram da mesma manhã. Às 12h50 o agente bateu no relógio. A frase de R$ 25 mil foi filmada em dois takes, e o último salto ficou sem o ângulo de lado.
  • Se você escolheu “Filmar só com a câmera A” e “Negociar um aditivo para a fala”: A Bia saltou catorze vezes e só depois disse a frase. No take escolhido, ela ainda está ofegante. A agência gostou: disse que parece verdade.
  • Se você escolheu “Pedir a câmera reserva à locadora” e “Defender a noite com uma carta da diretora”: A câmera extra saiu do caixa do comercial; o episódio 3 parado segurou a parcela da plataforma. Na sexta, a produtora pagou a folha com o cheque especial pela primeira vez no ano.
  • Se você escolheu “Cortar a fala e filmar só imagem” e “Filmar só com a câmera A”: Sem frase e com uma câmera só, o set terminou às 11h40. A Bia foi embora mais cedo, e o diretor usou a hora que sobrou para filmar os tênis no chão da rampa, que viraram o fim do comercial.

Como o dia termina

Você foi para a prestação de contas primeiro.

Havia uma atleta no set com uma câmera parada, um contrato aberto no camarim e um episódio recusado, e você abriu a planilha do filme do ano passado. Passou 1h00 conferindo datas de pagamento.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do prazo que ninguém via, o que decide se a produtora pode concorrer ao próximo filme. Produção executiva é isso: o set de hoje existe porque alguém fechou as contas do anterior.

Você foi para a câmera primeiro.

Você começou pelo set, onde um equipamento tinha parado com a atleta pronta para saltar. Passou 45 min entre o ângulo que o roteiro pedia e o tempo que a Bia tinha.

Câmera é isso: a imagem planejada encontra o equipamento que existe, o corpo de quem está em cena e o relógio. Quem opera decide, no meio do set, o que ainda dá para filmar.

Você foi para o camarim primeiro.

Você começou pela conversa com a Bia e o agente dela, sobre uma frase que ela não queria dizer. Passou 35 min entre o que a agência vendeu e o que o contrato dizia.

Quem trabalha com elenco vive isso: a pessoa na frente da câmera tem nome, contrato e outras empresas na vida dela. O filme só tem o que ela concorda em dar.

Você foi para a sala de cor primeiro.

Você começou pela sala escura, onde uma noite filmada meses atrás tinha sido recusada. Passou 50 min entre a imagem que a diretora pensou e a que a plataforma aceita.

Cor e finalização são isso: o último lugar onde o filme ainda muda, e o primeiro a ouvir quando ele não passa na entrega.

As quatro portas do audiovisual

Audiovisual não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo gosto por filme.

  • Produção executiva. Achar o dinheiro, gastá-lo dentro da regra e provar depois que foi assim.
  • Câmera e fotografia. Fazer a imagem planejada com o equipamento, a luz e o tempo que existem no set.
  • Direção e elenco. Conseguir de quem está em cena o que o filme precisa, dentro do que essa pessoa aceita.
  • Cor e finalização. Dar ao filme a cara final e defendê-la, ou ajustá-la, na hora da entrega.