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Um dia na pele de

O estúdio de realidade virtual

Você é desenvolvedora num estúdio de realidade virtual e aumentada no Porto Digital, em Recife, com 15 pessoas. Estão no forno um treinamento em realidade virtual para os operadores de uma usina e um app de realidade aumentada que mostra os sofás de uma rede de lojas na sala do cliente. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Realidade virtual não se testa só na tela: o enjoo está na sala de testes, a escala está na mesa do cliente, as fotos estão na criação. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer o mundo de mentira parecer de verdade sem enjoar quem está dentro dele.

Profissões com um dia assim: Desenvolvedor de Realidade Virtual · Desenvolvedor de Realidade Aumentada

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O estúdio de realidade virtual: o dia por escrito

Você é desenvolvedora num estúdio de realidade virtual e aumentada no Porto Digital, em Recife, com 15 pessoas. Estão no forno um treinamento em realidade virtual para os operadores de uma usina e um app de realidade aumentada que mostra os sofás de uma rede de lojas na sala do cliente. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Realidade virtual não se testa só na tela: o enjoo está na sala de testes, a escala está na mesa do cliente, as fotos estão na criação. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sua mesa: O quadro que chega atrasado

O óculos da usina mostra 72 quadros por segundo. Para isso, cada quadro tem que ficar pronto em até 13,9 milissegundos. Quando passa disso, a imagem treme quando a pessoa vira a cabeça, e é aí que o estômago reclama.

Você rodou as doze cenas do treinamento no óculos e anotou o tempo médio por quadro de cada uma.

Ache as cenas que passam de 13,9 milissegundos por quadro. São essas três. A sala das turbinas com 16,4, o vazamento de vapor com 18,9 e a sala das bombas com 14,6. As três têm a mesma coisa: fumaça e vapor feitos de milhares de partículas transparentes, que o óculos desenha uma por cima da outra. O corredor de cabos, com 13,9, está no limite e ainda passa. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h30: Você conferiu antes das 11h30. A versão de sexta para a usina ainda estava em aberto. As três cenas entraram nela já mais leves.
  • Entre 11h30 e 15h30: Você conferiu depois das 11h30. O artista já tinha acrescentado mais vapor na sala das bombas, a pedido do cliente. Você cortou partículas que tinham acabado de ser colocadas.
  • Depois das 15h30: O desempenho ficou para depois das 15h30. A versão de sexta foi fechada com as doze cenas como estavam. Os operadores vão testar o vapor do jeito que ele treme.

Sala de testes: Quatro minutos

Três operadores da usina vieram testar o treinamento. Seu Genival, 58 anos, 30 de usina, tirou o óculos em quatro minutos, pálido, e foi sentar. Os dois mais novos foram até o fim. O treinamento tem 40 minutos, e o cliente quer que o operador ande pela usina como andaria de verdade.

Andar com o controle, sem andar com o corpo, é o que mais enjoa quem nunca jogou videogame.

  • Trocar o andar por saltos de um ponto a outro. Você troca a caminhada por saltos: a pessoa aponta para onde quer ir e aparece lá. Seu Genival tenta de novo e vai até o fim da primeira parte. Diz que "parece um mapa, não parece a usina".
  • Manter o andar e quebrar em partes de 10 minutos. O andar continua como o cliente pediu, com uma fase de adaptação no começo e uma pausa a cada 10 minutos. O treinamento passa de uma manhã para dois dias. Seu Genival diz que tenta de novo amanhã, mais devagar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à sala de testes antes das 10h30. Seu Genival ainda estava sentado na sala, se recuperando. Deu para ouvir dele o que deu errado, e não do relatório.
  • Entre 10h30 e 14h: Você foi à sala de testes depois das 10h30. Os três operadores já tinham voltado para a usina. O que sobrou do teste foi o vídeo e uma frase anotada pela produtora.
  • Depois das 14h: A sala de testes ficou para depois das 14h. O gerente da usina ligou no começo da tarde perguntando se o treinamento "vai fazer o pessoal passar mal". O que quer que tenha sido decidido depois, foi para responder a ele.

Sala de reunião: Quatro centímetros

A gerente de produto da rede de móveis veio com um sofá na mão, quer dizer, no celular: uma cliente comprou um sofá pelo app, mediu a parede com fita e o sofá real ficou 4 centímetros maior do que o virtual. Não coube.

Os modelos 3D vêm do fabricante, cada um numa escala. Você sabe corrigir, mas são 300 produtos, e o lançamento na campanha de novembro é daqui a três semanas.

  • Lançar com aviso de medida aproximada. O app ganha uma faixa: "tamanho aproximado, confira as medidas do produto". Você corrige os 40 sofás mais vendidos até o lançamento e o resto depois. A gerente aceita e pergunta se a faixa pode ser menor.
  • Adiar até medir e corrigir os 300. Você propõe medir cada produto no centro de distribuição e corrigir um por um. Leva dois meses. A gerente diz que a campanha de novembro vai sair sem o app, e que a diretoria vai perguntar por quê.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi à reunião antes das 11h. A gerente ainda estava sozinha com o café. A conversa foi sobre o sofá, não sobre a campanha.
  • Entre 11h e 15h: Você foi à reunião depois das 11h. A gerente já tinha ligado para o marketing dela, que tinha o lançamento em todos os anúncios. Você entrou para mexer numa data que já estava impressa.
  • Depois das 15h: A reunião ficou para depois das 15h. A gerente foi embora antes do almoço e mandou um e-mail com o print do sofá e uma pergunta. O que quer que tenha sido combinado depois, foi por escrito, com a diretoria dela em cópia.

Criação: A sala de 80 mil pessoas

Para pôr o sofá no chão certo, o app escaneia a sala do cliente. Hoje esse escaneamento fica no celular e é apagado. O pessoal da criação mostra um pedido da rede: guardar as imagens na nuvem para melhorar a detecção do piso, e o marketing deles quer usar "as salas mais bonitas" num anúncio.

O app tem 80 mil usuários. Ninguém ali aceitou mostrar a própria sala para ninguém.

  • Manter tudo no celular, sem guardar. Você responde que o escaneamento continua no celular e explica por que não dá para guardar sem pedir. A detecção do piso escuro, que é a pior, vai continuar errando por mais alguns meses.
  • Guardar na nuvem com consentimento na tela. Você desenha uma tela que pergunta, com todas as letras, se a pessoa aceita guardar a imagem da sala para melhorar o app. Uso em anúncio fica fora, numa segunda pergunta. Um quarto dos usuários diz sim no primeiro dia.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à criação antes das 10h30. O pedido ainda era só um e-mail. Nenhuma linha de código tinha sido escrita para ele.
  • Entre 10h30 e 14h30: Você foi à criação depois das 10h30. O colega do back-end já tinha começado a preparar o servidor para receber as imagens. Você conversou sobre uma coisa que já estava pela metade.
  • Depois das 14h30: A criação ficou para depois das 14h30. O sócio do estúdio respondeu à rede no fim da manhã dizendo que "dá para fazer". O que quer que tenha sido decidido depois, foi para explicar o que ele tinha prometido.

Copa: Café, e o óculos visto de fora

A produtora conversa com o estagiário, que segura um óculos na mão.

“…quem joga não enjoa. O problema é quem nunca pegou num controle.”

Quase todo mundo da usina nunca pegou num controle. Quem testa o que vocês fazem é quem joga. Quinze minutos depois, você volta para a sua mesa com essa diferença na cabeça.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o senhor da usina tirou o óculos rapidinho. Tá sentado lá, branco.
  • …o cliente pediu mais vapor na sala das bombas. Diz que tá parecendo pouco.
  • …a moça da loja de móveis chegou com uma fita métrica no celular. Tá brava.
  • …a rede quer guardar as fotos das salas. Falaram até em anúncio.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Trocar o andar por saltos de um ponto a outro” e “Lançar com aviso de medida aproximada”: Você trocou o andar da usina por saltos e lançou o sofá com aviso de medida aproximada. Nos dois produtos, a experiência ficou um pouco menos real para caber no que o aparelho e o prazo aguentam.
  • Se você escolheu “Manter o andar e quebrar em partes de 10 minutos” e “Adiar até medir e corrigir os 300”: Você estendeu o treinamento para dois dias e adiou o app em dois meses. Os dois clientes vão receber exatamente o que pediram, os dois mais tarde do que queriam.
  • Se você escolheu “Guardar na nuvem com consentimento na tela” e “Lançar com aviso de medida aproximada”: O app lança com duas telas novas: uma avisando que a medida é aproximada e outra pedindo para guardar a foto da sala. O cliente da rede vai ler as duas antes de ver o primeiro sofá.
  • Se você escolheu “Manter tudo no celular, sem guardar” e “Trocar o andar por saltos de um ponto a outro”: Você deixou a sala dos clientes no celular deles e tirou o andar livre da usina. Nas duas, você escolheu o que tira menos de quem está do outro lado do óculos, e o produto ficou mais simples por isso.

Como o dia termina

Você foi para os milissegundos primeiro.

Havia um operador enjoado, uma cliente com fita métrica e um pedido de fotos, e você abriu a tabela do tempo por quadro. Passou 1h10 procurando as cenas que chegam atrasadas no olho.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do motivo antes do sintoma. Engine e desempenho é isso: o conforto de quem está dentro do óculos começa num número que ninguém vê.

Você foi para o Seu Genival primeiro.

Você começou pela sala de testes, por um operador que tirou o óculos em quatro minutos. Passou 50 min decidindo entre a usina de verdade e o estômago de quem vai treinar nela.

Quem faz realidade virtual vive esse teste: o mundo pode ser perfeito, e o corpo de quem entra nele ainda decide se funciona.

Você foi para o sofá primeiro.

Você começou pela reunião, por quatro centímetros que fizeram um sofá não caber. Passou 45 min decidindo quanto o virtual precisa ser igual ao real para alguém comprar por ele.

Realidade aumentada é isso: o objeto inventado é posto no mundo de verdade, e o mundo de verdade tem fita métrica.

Você foi para as fotos primeiro.

Você começou pela criação, pelas salas de 80 mil pessoas e um pedido para guardá-las. Passou 40 min decidindo o que um app pode levar da casa de quem o usa.

Quem faz realidade aumentada vive essa pergunta: para pôr algo na sua casa, o app precisa enxergar a sua casa, e alguém decide o que fazer com isso.

As três portas de AR/VR

Realidade virtual e aumentada não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo óculos.

  • Realidade virtual. Construir um mundo inteiro e cuidar de quem entra nele, inclusive do estômago.
  • Realidade aumentada. Pôr o virtual no mundo de verdade: escala, câmera e a casa de quem usa.
  • Engine e desempenho. Fazer cada quadro ficar pronto a tempo num aparelho que cabe na cabeça.