Um dia na pele de
O monumento de bronze de um escultor
Você é escultor e está em residência no centro cultural de uma cidade do interior de Minas que faz 150 anos em dezembro. A prefeitura encomendou a você o monumento da festa: uma lavadeira de bronze de quatro metros, em homenagem à Dona Zilda, que lavou roupa no rio por 60 anos e criou meio bairro. Ao mesmo tempo, você prepara um simpósio de escultura em pedra no pátio. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
A obra está no ateliê, mas as decisões estão na reserva, na sala expositiva, no pátio. Andar pelo casarão leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fazer a obra que você imaginou com o metal, o dinheiro e as pessoas que existem.
Profissões com um dia assim: Escultor
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O monumento de bronze de um escultor: o dia por escrito
Você é escultor e está em residência no centro cultural de uma cidade do interior de Minas que faz 150 anos em dezembro. A prefeitura encomendou a você o monumento da festa: uma lavadeira de bronze de quatro metros, em homenagem à Dona Zilda, que lavou roupa no rio por 60 anos e criou meio bairro. Ao mesmo tempo, você prepara um simpósio de escultura em pedra no pátio. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
A obra está no ateliê, mas as decisões estão na reserva, na sala expositiva, no pátio. Andar pelo casarão leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Ateliê: As partes pesadas demais
A lavadeira vai ser fundida em doze partes, depois soldadas. A fundição mandou a ficha com o volume de cera de cada parte, e às 14h fecha a lista de cortes: a parte que for pesada demais precisa ser cortada em duas antes de fazer o molde.
O cadinho da fundição derrama até 150 quilos de bronze de uma vez. A ficha não traz o peso. Traz o volume, e um litro de bronze pesa 8,8 quilos.
Ache as partes que passam de 150 kg de bronze. São essas três: o tronco superior (158 kg), o braço com a trouxa (154) e a saia de costas (167). O braço engana: parece leve, mas a trouxa está fundida junto. A saia da frente fica em 149,6 kg: passa raspando no cadinho, sem corte. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de ir à fundição desenhar você mesmo onde cada corte passa, escondido numa dobra da saia e na manga. A solda vai ficar onde ninguém olha.
- Entre 11h e 14h: Você achou depois das 11h. A lista chegou antes das 14h, mas por telefone. O fundidor decidiu sozinho onde cortar, e um dos cortes atravessa o braço no meio da trouxa.
- Depois das 14h: A ficha ficou para depois das 14h. A fundição fechou a lista sem os cortes e só descobriu o peso ao montar o molde. A fundição da lavadeira atrasou duas semanas, e dezembro ficou mais perto.
Sala expositiva: Não é o rosto da minha avó
Na sala expositiva, a maquete de 60 centímetros está num pedestal, e a Cláudia, neta da Dona Zilda, olha para ela de braços cruzados. O secretário de cultura está do lado. "Ela nunca teve esse rosto sério. A vó ria o tempo todo."
Você fez o rosto sério de propósito: 60 anos de rio, o peso da trouxa. O contrato diz que a família aprova o rosto. A modelagem em tamanho real começa na semana que vem.
- Refazer o rosto sorrindo, como a família pede. Você pede fotos da Dona Zilda e refaz o rosto na maquete, com o riso que a Cláudia descreve. Ela chora quando vê. O secretário aprova na hora. A lavadeira que você tinha imaginado, cansada e forte, fica numa foto no seu celular.
- Defender o rosto sério e propor um meio-termo. Você explica por que o rosto é sério e propõe manter a expressão e suavizar os olhos. A Cláudia diz que vai conversar com a família. O secretário avisa que a aprovação do rosto é cláusula do contrato e que ele precisa da resposta até sexta.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à sala expositiva antes das 10h. A Cláudia tinha acabado de chegar e ainda olhava a maquete sozinha. A conversa começou entre vocês dois, antes do secretário.
- Entre 10h e 13h: Você foi à sala expositiva depois das 10h. A Cláudia já tinha mandado uma foto da maquete para o grupo da família. Você entrou numa conversa em que vinte pessoas já tinham dado opinião.
- Depois das 13h: A sala expositiva ficou para depois das 13h. A Cláudia foi embora sem falar com você e deixou um recado com o secretário. O que quer que tenha sido conversado depois, chegou a ela pelo telefone dele.
Reserva técnica: A mão no chão
Na reserva, o modelo de argila do braço direito, em tamanho real, está sem a mão: o assistente esbarrou de madrugada ao cobrir a peça, e a mão partiu em três pedaços no chão. Era a peça de que você mais gostava, com os dedos enrugados de água.
O molde de silicone do braço está marcado para amanhã cedo, na fila da fundição. Remodelar a mão leva dois dias.
- Remodelar a mão do zero. Você cancela o molde de amanhã e passa dois dias com a argila. A mão nova sai diferente da primeira, e você gosta mais dela. O braço vai para o fim da fila da fundição, e a lavadeira fica uma semana mais apertada para dezembro.
- Colar os pedaços e corrigir depois, na cera. Você cola os três pedaços com barbotina e o molde sai amanhã. As linhas da quebra vão aparecer na cera, e você vai ter de apagá-las uma por uma, com espátula quente, na fundição. Os dedos enrugados ficaram, com três cicatrizes que só você vai saber onde estão.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você foi à reserva antes das 9h. A argila dos pedaços ainda estava úmida. Qualquer decisão começava com o material ainda trabalhável.
- Entre 9h e 12h: Você foi à reserva depois das 9h. Os pedaços passaram a manhã no chão secando. Qualquer decisão agora começava molhando a argila de novo, com cuidado para não rachar mais.
- Depois das 12h: A reserva ficou para depois do meio-dia. O assistente, sem resposta, embrulhou os pedaços num pano úmido e foi almoçar. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com a argila meio seca.
Pátio: A veia no granito
No pátio, um caminhão com guindaste está parado com um bloco de granito de três toneladas pendurado a um palmo do chão. É a pedra do simpósio de escultura de daqui a três semanas, em que você vai esculpir ao vivo, na frente da cidade. Atravessando o bloco, uma veia mais clara, fina como um fio.
Veia pode ser só cor, ou pode ser uma fratura que abre com a primeira marretada. O motorista quer saber se descarrega ou se volta para a pedreira.
- Aceitar o bloco e esculpir a favor da veia. O bloco desce no pátio. Você passa a mão na veia e redesenha a escultura para que ela atravesse uma parte que pode, se precisar, ficar de fora. Se a pedra partir no simpósio, vai partir na frente da cidade inteira.
- Devolver o bloco para a pedreira. O caminhão volta com o bloco. A pedreira promete outro em duas semanas, a uma semana do simpósio, sem garantia de que venha sem veia. O frete da viagem de volta vem na conta do centro cultural.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h30: Você foi ao pátio antes das 8h30. O caminhão tinha acabado de encostar. O motorista ainda tomava o café que a moça do café levou, sem pressa.
- Entre 8h30 e 10h30: Você foi ao pátio depois das 8h30. O motorista já tinha ligado duas vezes para a pedreira e esperava com o motor ligado e o bloco pendurado.
- Depois das 10h30: O pátio ficou para depois das 10h30. O motorista tinha outra entrega e não quis esperar mais. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido por telefone, com ele já na estrada.
Café: Café, e a escultura vista da rua
Dois funcionários da prefeitura estão no café, de colete laranja, esperando a reunião com o secretário.
“…estátua de quatro metros, de bronze. Com esse dinheiro dava pra asfaltar a rua do rio.”
O rapaz do café diz que a avó dele lavou roupa com a Dona Zilda. Os dois ficam quietos. Quinze minutos depois, você volta ao ateliê lembrando que a obra vai ficar numa praça, e a praça é de todo mundo, inclusive de quem achou cara.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o pessoal da fundição ligou. Querem saber onde cortar a lavadeira antes das duas.
- …a neta da Dona Zilda tá na sala da maquete. Não gostou do rosto.
- …o menino que ajuda no ateliê tá com uma cara. Parece que quebrou alguma coisa na reserva.
- …tem um caminhão com uma pedra pendurada no pátio. O motorista tá perguntando por você.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Refazer o rosto sorrindo, como a família pede” e “Colar os pedaços e corrigir depois, na cera”: O rosto da lavadeira mudou para o riso da família e a mão vai para o bronze colada em três pedaços. No mesmo dia, as duas partes da obra que eram mais suas ficaram um pouco menos suas.
- Se você escolheu “Remodelar a mão do zero” e “Devolver o bloco para a pedreira”: Dois dias de argila para a mão nova e uma pedra que só volta a uma semana do simpósio. Você trocou tempo por material duas vezes na mesma segunda, e dezembro não mudou de lugar.
- Se você escolheu “Defender o rosto sério e propor um meio-termo” e “Aceitar o bloco e esculpir a favor da veia”: Você manteve o rosto sério e aceitou a pedra com veia. As duas escolhas defendem a obra que você imaginou, e as duas podem dar errado em público: uma na inauguração, outra no simpósio.
- Se você escolheu “Remodelar a mão do zero” e “Defender o rosto sério e propor um meio-termo”: O braço perdeu a vez na fundição e o rosto espera a resposta da família até sexta. A lavadeira começou a semana com duas partes paradas, as duas por escolha sua.
Como o dia termina
Você foi para a fundição primeiro.
Havia uma neta olhando a maquete, uma mão de argila no chão e uma pedra pendurada no pátio, e você abriu a ficha da fundição. Passou 1h15 multiplicando litros de cera por quilos de bronze.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás da conta que decide onde a obra vai ser cortada. Modelagem e fundição é isso: a escultura nasce na argila, mas só existe depois de passar pelo fogo, pelo peso e pela solda.
Você foi para a família primeiro.
Você começou pela sala expositiva, onde uma neta não reconhecia a avó na maquete. Passou 50 min entre o rosto que você imaginou e o rosto de que a família se lembra.
Arte pública é isso: a obra é sua, mas a homenagem é da cidade, e quem vai passar por ela todo dia também tem algo a dizer.
Você foi para a argila primeiro.
Você começou pela reserva, com a mão de que mais gostava partida no chão. Passou 55 min entre refazer com as próprias mãos e consertar numa etapa mais difícil.
Isso também é modelagem e fundição: cada etapa do bronze copia a anterior, e o que não se resolve na argila vai junto até o metal.
Você foi para a pedra primeiro.
Você começou pelo pátio, com três toneladas de granito penduradas e uma veia atravessando. Passou 45 min entre confiar no material e devolvê-lo.
Talha direta é isso: na pedra não existe molde nem cópia, cada golpe é definitivo, e escolher o bloco já é metade da escultura.
As três portas da escultura
Escultura não é um ofício só, são vários, e eles se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho da obra.
- Modelagem e fundição. Argila, molde, cera e bronze: levar a forma de um material para outro sem perdê-la no caminho.
- Arte pública e monumentos. Obras para a praça e para a cidade, feitas com encomenda, contrato e gente que vai conviver com elas.
- Talha em pedra e madeira. Tirar do bloco o que não é escultura, golpe a golpe, sem volta.