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Um dia na pele de

O sábado da companhia de dança

Você é a ensaiadora da companhia municipal de dança: 12 bailarinos, uma coreografia de 40 minutos que precisa caber em 25 e um festival daqui a três semanas. Neste sábado, o teatro está fechado ao público e quatro coisas pedem você ao mesmo tempo. Você decide a ordem.

Dança não se resolve na sala da direção: o corpo que dói está no camarim, a obra está no palco, o grupo do projeto está na sala 2. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer a obra caber no festival sem quebrar quem dança nela.

Profissões com um dia assim: Coreógrafo · Bailarino · Terapeuta em Dança-Movimento

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

O sábado da companhia de dança: o dia por escrito

Você é a ensaiadora da companhia municipal de dança: 12 bailarinos, uma coreografia de 40 minutos que precisa caber em 25 e um festival daqui a três semanas. Neste sábado, o teatro está fechado ao público e quatro coisas pedem você ao mesmo tempo. Você decide a ordem.

Dança não se resolve na sala da direção: o corpo que dói está no camarim, a obra está no palco, o grupo do projeto está na sala 2. Andar entre eles leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Sala da direção: Doze papéis, um substituto cada

No festival, cada papel precisa de um titular e de um substituto ensaiado. O substituto só serve se estiver livre na cena: quem já dança naquela cena não pode trocar de lugar no meio dela.

O quadro foi montado às pressas na semana passada. A direção do festival pede a lista final hoje.

Ache os papéis cujo substituto já dança na mesma cena. São esses três. A Joana substitui o duo B da cena 1, onde ela já está no coro. A Yasmin substitui o solo da cena 2, onde ela está no trio. O Rafa substitui o duo da cena 4, onde ele dança o outro duo. Três buracos, e o Rafa aparece em quatro linhas do quadro. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Os três substitutos novos souberam antes do ensaio da tarde. Deu para ensaiar cada um no papel ainda hoje, com o elenco inteiro no palco.
  • Entre 11h e 15h: Você achou depois das 11h. O ensaio da tarde já tinha começado com o quadro antigo. Os substitutos novos assistiram da coxia e vão ensaiar o papel só na segunda.
  • Depois das 15h: O quadro ficou para depois das 15h. A lista foi para o festival às 15h como estava. O que quer que tenha sido corrigido depois, chegou como uma troca de elenco, com um e-mail pedindo desculpas.

Palco: Quinze minutos a menos

O festival aceitou a obra com uma condição: 25 minutos, não 40. A coreógrafa autora mora em Lisboa e respondeu por áudio: "confio em você para cortar".

Há duas saídas no palco. Cortar a cena coletiva, em que os 12 dançam juntos, e manter o solo da Joana, que é o coração da obra. Ou encurtar o solo e manter todo mundo em cena.

  • Cortar a cena coletiva. Você marca o novo final com o elenco. Quatro bailarinos que só dançavam na cena coletiva não vão ao festival. Um deles agradece pela explicação; outro sai do palco sem dizer nada. A Joana ensaia o solo inteiro de novo, com o teatro em silêncio.
  • Encurtar o solo e manter os 12. Você tira dois terços do solo e costura a cena coletiva direto no final. Os 12 viajam. A Joana ensaia a versão curta sem reclamar e, no intervalo, pergunta baixinho se a coreógrafa sabe.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi ao palco antes das 10h30. O elenco ainda estava aquecendo. A decisão foi explicada a todos ao mesmo tempo, antes de alguém ouvir pela metade no corredor.
  • Entre 10h30 e 14h: Você foi ao palco depois das 10h30. O elenco já tinha passado a obra inteira uma vez, nos 40 minutos. Você anunciou o corte para corpos cansados, e alguns já tinham ouvido o boato.
  • Depois das 14h: O palco ficou para depois das 14h. O técnico de luz vai embora às 16h e só volta na terça. O que quer que tenha sido cortado depois, foi ensaiado sem luz, com a luz de serviço acesa.

Camarim: A dor no tendão

O Davi, 24 anos, está no camarim com gelo no tendão de Aquiles. Doeu ontem no salto da cena 2. A fisioterapeuta da companhia acha que é inflamação e pede uma semana sem saltar.

O Davi quer dançar o ensaio de hoje: é a primeira vez que ele tem um trio, e ele sabe que, se o substituto entrar agora, pode não sair mais.

  • Tirar o Davi do ensaio por uma semana. Você explica ao Davi que o trio continua dele e marca a volta com a fisioterapeuta para sábado que vem. O Caíque entra no trio à tarde. O Davi assiste da plateia, de tênis, anotando as entradas num caderno.
  • Deixar dançar sem os saltos. Você adapta a cena 2: os saltos do Davi viram giros no chão por uma semana. Ele dança o ensaio inteiro. A fisioterapeuta anota no prontuário dele que foi contra, e pede para ver o tendão toda manhã.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi ao camarim antes das 10h. O Davi ainda não tinha aquecido. A decisão veio antes de ele forçar o tendão no aquecimento, e com a fisioterapeuta ao lado.
  • Entre 10h e 13h: Você foi ao camarim depois das 10h. O Davi já tinha feito a aula da manhã inteira, saltos incluídos, para mostrar que estava bem. Você decidiu sobre um tendão que tinha trabalhado duas horas.
  • Depois das 13h: O camarim ficou para depois das 13h. O Davi esperou e, sem resposta, entrou no ensaio da tarde. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido com ele já suado e mancando no fim da cena 2.

Sala 2: A câmera na sala 2

Todo sábado, a companhia recebe na sala 2 um grupo de oito mulheres de um centro de atenção psicossocial, numa oficina de dança-movimento conduzida pela terapeuta Sônia. A Secretaria de Cultura mandou um videomaker: quer filmar a oficina para a campanha de renovação do projeto.

A Sônia diz que, com câmera, metade do grupo não vai se mexer. Sem o vídeo, a renovação do ano que vem fica mais difícil.

  • Deixar filmar só quem autorizar. Você combina com o videomaker: só mãos, pés e quem assinar a autorização. Três assinam. A Sônia conduz a oficina com a câmera num canto. Duas mulheres ficam sentadas a maior parte do tempo, olhando para ela.
  • Recusar a filmagem hoje. Você manda o videomaker embora com um pedido: gravar o depoimento da Sônia na semana que vem, fora da oficina. A secretaria responde por e-mail que a renovação depende de mostrar o projeto, e pede uma proposta até sexta.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi à sala 2 antes das 9h30. O grupo ainda estava chegando. A Sônia e o videomaker ouviram a mesma decisão juntos, antes de qualquer equipamento ser montado.
  • Entre 9h30 e 11h: Você foi à sala 2 depois das 9h30. O videomaker já tinha montado o tripé e duas mulheres estavam paradas na porta, sem entrar. Você decidiu com a oficina meio começada.
  • Depois das 11h: A sala 2 ficou para depois das 11h. A oficina termina às 11h. O que quer que tenha sido decidido depois, a Sônia decidiu sozinha na hora, e a secretaria ouviu a versão do videomaker primeiro.

Café do teatro: Café, e a dança vista de fora

Dois técnicos de palco, de preto, tomam café antes de montar a luz.

“…dança é bonito, mas isso não é trabalho, é hobby que a prefeitura paga.”

Hoje você tem um quadro de elenco para refazer, uma obra para cortar, um tendão inflamado e um projeto que depende de um vídeo. Quinze minutos depois, você volta para o corredor com essa frase no ombro.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o festival quer a lista do elenco hoje até as três.
  • …dizem que vão cortar metade da obra. Ninguém sabe que parte.
  • …o Davi pediu mais gelo. Disse que tá ótimo.
  • …tem um rapaz da secretaria montando câmera na sala 2.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Tirar o Davi do ensaio por uma semana” e “Encurtar o solo e manter os 12”: O Davi parado por uma semana e os 12 mantidos no festival: o Caíque está ensaiando dois papéis ao mesmo tempo, o dele e o do Davi. Na sexta, ele pediu para conversar com você depois do ensaio.
  • Se você escolheu “Cortar a cena coletiva” e “Deixar dançar sem os saltos”: Quatro bailarinos ficaram fora do festival e o Davi, com o tendão inflamado, ficou dentro. No camarim, alguém perguntou em voz alta qual era o critério.
  • Se você escolheu “Deixar filmar só quem autorizar” e “Encurtar o solo e manter os 12”: A oficina filmada e os 12 no festival: neste sábado, a companhia escolheu aparecer inteira. A secretaria já pediu as imagens das duas coisas para o mesmo vídeo.
  • Se você escolheu “Recusar a filmagem hoje” e “Cortar a cena coletiva”: Sem câmera na sala 2 e quatro bailarinos fora do festival. As duas decisões protegem alguma coisa, e as duas vão ser explicadas na reunião com a secretaria, que só vê o que ficou de fora.

Como o dia termina

Você foi para o quadro primeiro.

Havia uma obra para cortar, um bailarino com dor e uma câmera na sala 2, e você começou pelo quadro que só a direção do festival estava esperando. Passou 1h00 cruzando substituto com cena.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do buraco antes de ele aparecer no palco. Ensaiar uma companhia também é isso, garantir que a obra continue de pé quando alguém cair.

Você foi para o palco primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a obra. Passou 55 min decidindo o que de 40 minutos de dança cabe em 25, e quem fica fora.

Coreografar é isso também: cortar, sabendo que cada corte é o trabalho de alguém, e que a obra tem um centro que alguém precisa defender.

Você foi para o camarim primeiro.

Você começou pelo Davi, onde a pergunta era o tendão de hoje ou o papel de amanhã. Passou 40 min entre a fisioterapeuta e um bailarino de 24 anos com medo de perder o lugar.

Quem dança vive essa conta a carreira inteira: o corpo é o instrumento, e às vezes parar é a única forma de continuar.

Você foi para a sala 2 primeiro.

Havia um quadro, uma obra e um tendão, e você foi primeiro a um grupo que não era da companhia. Passou 45 min decidindo entre o vídeo que mantém o projeto e a sala onde aquelas mulheres se mexem sem ser olhadas.

Na dança-movimento terapia, o movimento é cuidado: o que importa não é a forma, é o que acontece com quem se move.

As três portas da Dança

Dança não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo estilo.

  • Coreografia. Criar, ensaiar e cortar a obra, e defender o centro dela.
  • Dança cênica. Dançar a obra com o próprio corpo, e cuidar dele como instrumento.
  • Dança-movimento terapia. Usar o movimento como cuidado, onde importa quem se move, não a forma.