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Um dia na pele de

A reforma do apartamento de 1978

Você é a arquiteta da reforma de um apartamento de 120 metros num prédio de 1978: a Marina e o Paulo se mudam em seis semanas, e a obra está no meio. Nesta sexta-feira você passa o dia lá, e quatro coisas pedem você ao mesmo tempo. Você decide a ordem.

Cada problema está num cômodo: na cozinha, na sala, no quarto, no banheiro. Andar pelo apartamento em obra, entre caixas e entulho, leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Fazer a casa de quem vai morar nela, não a do seu portfólio.

Profissões com um dia assim: Arquiteto de Interiores · Designer de Interiores · Consultor de Decoração

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A reforma do apartamento de 1978: o dia por escrito

Você é a arquiteta da reforma de um apartamento de 120 metros num prédio de 1978: a Marina e o Paulo se mudam em seis semanas, e a obra está no meio. Nesta sexta-feira você passa o dia lá, e quatro coisas pedem você ao mesmo tempo. Você decide a ordem.

Cada problema está num cômodo: na cozinha, na sala, no quarto, no banheiro. Andar pelo apartamento em obra, entre caixas e entulho, leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Cozinha: O piso que falta uma peça

O porcelanato chegou e está empilhado na cozinha. É de um lote que a fábrica está encerrando: a loja segura o que sobrou só até as 12h, depois vende para outra obra. Se faltar piso depois, vem de outro lote, com outra tonalidade.

A regra de obra é comprar a área de cada cômodo mais 10% de perda, para corte e quebra. Você abre a lista do que foi comprado.

Ache o cômodo em que o piso comprado não cobre a área mais 10%. É esse. Varanda: 4 por 1,5 dá 6 m², mais 10% dá 6,6. Compraram 6,5. Parece nada: é uma caixa a menos. E é a caixa que, se faltar no fim da obra, vem de outro lote, num tom que todo mundo vai ver na varanda. Cada tentativa errada custa 5 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. A loja ainda tinha o lote. A caixa a mais chegou à tarde, junto com a nota, e foi para o canto da cozinha com as outras.
  • Entre 11h e 14h: Você achou depois das 11h. A loja tinha vendido quase tudo do lote para outra obra. Sobrou meia caixa, com uma peça trincada. Deu para fechar a varanda, sem nenhuma peça de reserva para o futuro.
  • Depois das 14h: A cozinha ficou para depois das 14h. O lote foi vendido ao meio-dia. Se o piso da varanda faltar, e vai faltar uma caixa, vai vir de outro lote. O assentador já avisou que dá para ver a diferença de tom no sol da tarde.

Sala: O pilar dentro da parede

O projeto abria a parede entre a sala e a cozinha. O engenheiro mandou o laudo hoje: a parede pode sair, mas tem um pilar de 30 por 30 no meio dela, que fica. A Marina e o Paulo estão na sala, olhando a parede marcada a lápis.

A Marina sempre quis a cozinha aberta. O Paulo nunca quis, e agora tem um motivo. Os dois olham para você: "Você é a arquiteta."

  • Abrir a parede e assumir o pilar no meio da sala. A parede sai e o pilar fica, sozinho, entre a sala e a cozinha. Você desenha um balcão em volta dele, com banquetas. A Marina adora. O Paulo diz que vai bater o ombro nele a vida inteira, e mede com a trena para provar.
  • Manter a parede e abrir só um vão sobre a bancada. Você desenha um vão largo na altura da bancada, sem tocar no pilar. O Paulo aprova na hora. A Marina diz que contratou uma arquiteta para ter uma cozinha integrada, e que aquilo não é integrada.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você foi à sala antes das 10h30. O pedreiro ainda não tinha chegado com a marreta. A conversa aconteceu com a parede inteira, e com tempo.
  • Entre 10h30 e 13h: Você foi à sala depois das 10h30. O pedreiro estava esperando com a marreta na mão desde as dez. O casal decidiu com ele olhando, e com uma diária de pedreiro correndo.
  • Depois das 13h: A sala ficou para depois das 13h. O casal discutiu a parede sozinho a manhã inteira, e foi almoçar sem se falar. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido entre duas pessoas que já tinham brigado por causa disso.

Quarto do casal: Os 10% da loja

A Sílvia, vendedora de uma loja de móveis de alto padrão, veio mostrar o catálogo. Os móveis que a Marina escolheu somam R$ 38 mil. Antes de ir embora, ela fala baixo com você: a loja paga 10% ao arquiteto que indica. É comum no mercado, e é legal.

Você conhece outra loja com um sofá parecido, 30% mais barato. Lá ninguém paga nada ao arquiteto.

  • Indicar a loja da comissão e contar à Marina que você recebe. Você conta à Marina que recebe 10% da loja. Ela agradece a franqueza, fica um minuto em silêncio e pergunta se a outra loja tem algo parecido. Fecha na loja da Sílvia mesmo. Na próxima indicação, ela pergunta primeiro se você ganha alguma coisa.
  • Indicar o sofá da outra loja, sem comissão. Você mostra o sofá da outra loja. A Marina compra lá e economiza. A Sílvia, quando sabe, para de chamar você para os lançamentos da loja. O seu mês fecha com R$ 3.800 a menos do que fecharia.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você foi ao quarto antes das 11h. A Sílvia ainda estava abrindo o catálogo. A Marina não tinha se apaixonado por nada ainda.
  • Entre 11h e 15h: Você foi ao quarto depois das 11h. A Marina já tinha escolhido o sofá e tirado foto para mandar à mãe. O que você disse, disse sobre um sofá que ela já chamava de dela.
  • Depois das 15h: O quarto ficou para depois das 15h. A Sílvia deixou o orçamento com a Marina e foi embora. O que quer que tenha sido conversado depois, a Marina já tinha o papel da loja com o seu nome escrito no campo "arquiteto".

Banheiro da suíte: A sogra que vem morar junto

O Paulo conta só hoje: a mãe dele, Dona Teresa, 82 anos, de andador, vem morar com eles em janeiro. O quarto 2 vai ser dela. O banheiro mais perto é o da suíte, que tem banheira, o sonho da Marina, e um degrau no box.

O banheiro social é menor e fica do outro lado do corredor. A banheira está no chão do banheiro, ainda na caixa.

  • Refazer o banheiro da suíte para ela, sem banheira. Você tira a banheira do projeto, desenha um box sem degrau, com barras e banco. A banheira volta para a loja com 20% de multa. A Marina não diz nada a você. Diz ao Paulo, no corredor, que a casa já é da mãe dele antes de ela chegar.
  • Manter a suíte e adaptar o banheiro social para ela. A suíte fica como está. Você adapta o banheiro social: tira o degrau, põe barras, troca a porta por uma de correr. Não cabe banco. A Dona Teresa vai atravessar o corredor de andador toda noite. O Paulo aprova e não olha para a Marina.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 12h: Você foi ao banheiro antes do meio-dia. O encanador ainda não tinha ligado o ralo da banheira. Qualquer que fosse a decisão, mudava um desenho, não um encanamento.
  • Entre 12h e 16h: Você foi ao banheiro depois do meio-dia. O encanador já tinha ligado o ralo da banheira e começado o degrau do box. Qualquer mudança agora desfazia o trabalho da manhã dele.
  • Depois das 16h: O banheiro ficou para depois das 16h. O encanador terminou a banheira e o box do jeito do projeto e foi embora. O que quer que tenha sido decidido depois, foi decidido em cima de um banheiro pronto.

Varanda: Café, e a arquitetura vista da obra

O pedreiro e o eletricista estão na varanda, com a garrafa de café e o pão.

“…arquiteto desenha bonito. Quem faz caber é a gente.”

Metade do que você desenhou mudou na obra, e a outra metade só ficou de pé porque eles avisaram antes. Quinze minutos depois, você volta para dentro sabendo que o projeto que importa é o que eles conseguem fazer.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a loja do piso ligou. Disse que o lote acaba hoje e perguntou se a gente vai querer mais.
  • …o Zé tá com a marreta na mão esperando pra derrubar a parede da cozinha.
  • …a moça da loja de móveis tá no quarto com a Marina faz uma hora.
  • …o encanador vai ligar o ralo da banheira depois do almoço.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Abrir a parede e assumir o pilar no meio da sala” e “Manter a suíte e adaptar o banheiro social para ela”: A Marina ganhou a cozinha aberta e a banheira. A Dona Teresa ganhou o banheiro pequeno, do outro lado do corredor. O Paulo fez a conta de quem tinha ganhado o quê, e fez em voz alta.
  • Se você escolheu “Manter a parede e abrir só um vão sobre a bancada” e “Refazer o banheiro da suíte para ela, sem banheira”: Na mesma sexta, a Marina perdeu a cozinha integrada e a banheira. As duas decisões fazem sentido sozinhas. Juntas, ela vai lembrar desta sexta como o dia em que a casa deixou de ser dela.
  • Se você escolheu “Indicar a loja da comissão e contar à Marina que você recebe” e “Refazer o banheiro da suíte para ela, sem banheira”: Você contou à Marina sobre a comissão da loja e, horas depois, tirou a banheira dela. Ela não ligou uma coisa à outra. Mas lembrou das duas quando pagou a multa da banheira.
  • Se você escolheu “Indicar o sofá da outra loja, sem comissão” e “Abrir a parede e assumir o pilar no meio da sala”: Você indicou a loja mais barata e desenhou o balcão em volta do pilar. O dinheiro que a Marina economizou no sofá foi para as banquetas do balcão. Ninguém fez essa conta além de você.

Como o dia termina

Você foi para as caixas de piso primeiro.

Havia um casal diante de uma parede, uma vendedora no quarto e uma banheira ainda na caixa, e você foi contar metro quadrado na cozinha. Passou 1h00 multiplicando medidas.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você começou pelo que tinha hora para acabar. Acompanhar obra é isso: o projeto bonito depende de uma caixa de piso comprada a tempo.

Você foi para a parede primeiro.

Você começou pela sala, onde um pilar dentro da parede virou o argumento de um casal que já discordava. Passou 50 min desenhando entre o que a Marina queria e o que o Paulo aceitava.

Projeto de interiores é isso: a planta resolve o espaço, e quase sempre também precisa resolver duas pessoas que moram nele.

Você foi para o catálogo primeiro.

Você começou pelo quarto, onde uma vendedora ofereceu uma comissão para você indicar a loja dela. Passou 40 min entre o sofá que a cliente amou e o que ela pode pagar.

Decoração é isso: escolher móvel é escolher fornecedor, e todo fornecedor quer ser escolhido.

Você foi para o banheiro primeiro.

Você começou pelo banheiro da suíte, onde uma banheira ainda na caixa disputava espaço com uma senhora de 82 anos que nem tinha chegado. Passou 45 min pensando em quem vai usar a casa daqui a dez anos.

Projetar para quem mora é isso: a casa precisa servir a quem ainda vai chegar, inclusive quando quem paga não pensou nisso.

As três portas de Interiores

Arquitetura de interiores não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo tamanho do apartamento.

  • Projeto de interiores. Desenhar a casa para quem mora nela, inclusive quando são duas vontades.
  • Obra e especificação. Fazer o projeto chegar inteiro à obra: material certo, na quantidade certa, a tempo.
  • Decoração. Escolher o que vai dentro da casa, com o gosto do cliente e o bolso dele.