🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

A safra de uma fazenda de soja

Você é a agrônoma da cooperativa que atende uma fazenda de soja de 1.800 hectares no oeste do Paraná. É janeiro: a soja precoce está sendo colhida, a tardia ainda está enchendo grão, e o milho safrinha tem que entrar logo atrás da colhedora. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no escritório: está na lavoura, no barracão, na sala do produtor. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Colher o que está pronto sem perder o que ainda está na planta.

Profissões com um dia assim: Agrônomo · Consultor Agronômico · Especialista em Soja · Engenheiro Agrícola

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A safra de uma fazenda de soja: o dia por escrito

Você é a agrônoma da cooperativa que atende uma fazenda de soja de 1.800 hectares no oeste do Paraná. É janeiro: a soja precoce está sendo colhida, a tardia ainda está enchendo grão, e o milho safrinha tem que entrar logo atrás da colhedora. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no escritório: está na lavoura, no barracão, na sala do produtor. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Escritório técnico: Os talhões que pedem calcário

A cooperativa fecha hoje às 14h o pedido conjunto de calcário: um caminhão só, frete dividido entre os cooperados, para aplicar depois do milho. O laudo do laboratório chegou com os doze talhões da fazenda.

A regra que você usa: precisa de calcário o talhão em que a saturação por bases fica abaixo de 50%. O laudo não traz essa conta pronta. Traz a soma de bases (SB) e a CTC, e a saturação é SB dividida pela CTC.

Ache os talhões com saturação por bases abaixo de 50%. São esses três: T02, T05 e T09, todos em 40%. O T05 engana: tem soma de bases alta, mas a CTC é maior ainda. O T06 e o T08, com SB baixa, ficam em 70% porque a CTC também é baixa. E o T11 bate 50% exatos: não entra. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 11h: Você achou antes das 11h. Deu tempo de ligar para a cooperativa e confirmar a dose de cada talhão antes de fechar. Os 365 hectares entraram no caminhão conjunto, pelo frete dividido.
  • Entre 11h e 14h: Você achou depois das 11h. O pedido entrou antes das 14h, mas o caminhão conjunto já estava quase cheio. Coube o calcário de dois talhões; o terceiro vai num frete avulso, pago só pela fazenda.
  • Depois das 14h: O laudo ficou para depois das 14h. O pedido conjunto da cooperativa fechou às 14h sem a fazenda. O calcário que ela precisar vai em frete avulso, e a conta chega ao Seu Valdir com o laudo que você assina.

Talhão 7: Três folhas com pústula

O monitor de pragas da fazenda achou, na bordadura do talhão 7, três folhas com as pústulas da ferrugem asiática. A soja ali está enchendo grão. Os outros talhões tardios, 350 hectares, ficam a menos de dois quilômetros.

O pulverizador está abastecido no barracão. A aplicação do fungicida custa uns R$ 180 por hectare, e o Seu Valdir já disse que este ano o dinheiro está curto.

  • Aplicar nos 510 hectares tardios agora. O pulverizador sai para o talhão 7 e emenda nos vizinhos. São R$ 92 mil em fungicida e três dias de máquina. Se a ferrugem chegaria aos outros talhões, ninguém vai saber, e o Seu Valdir vai perguntar.
  • Aplicar no talhão 7 e voltar em três dias. O talhão 7 recebe o fungicida hoje, R$ 29 mil. O monitor passa a entrar nos outros talhões a cada três dias. Se a ferrugem aparecer neles, a aplicação começa com a doença já instalada, e cada dia a mais pesa no grão.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao talhão antes das 9h. O pulverizador ainda estava no barracão, com o tanque cheio para o talhão 3. Deu para mudar a rota antes de ele sair.
  • Entre 9h e 11h: Você foi ao talhão depois das 9h. O pulverizador já tinha saído para o talhão 3. Qualquer mudança custou uma volta inteira de tanque e uma hora de máquina.
  • Depois das 11h: O talhão 7 ficou para depois das 11h. Depois das 11h o vento passou do limite e o pulverizador ficou parado até o fim da tarde. O que quer que tenha sido decidido, só foi para o campo amanhã cedo: um dia a mais de esporo no ar.

Barracão de máquinas: Duas sacas e meia no chão

O Gilmar, operador da colhedora, mostra a medição que fez ontem no talhão 2: duas sacas e meia de soja por hectare ficando no chão. O aceitável é uma. Ele acha que é a regulagem do molinete e do caracol da plataforma.

Regular leva a manhã. A previsão é de chuva a partir de quinta, e ainda faltam 600 hectares de soja precoce para colher.

  • Parar a colhedora e regular hoje. Você e o Gilmar passam a manhã com a plataforma aberta. À tarde a perda medida cai para menos de uma saca. A colhedora deixou de colher uns 70 hectares no melhor sol da semana, e eles entram na fila antes da chuva de quinta.
  • Seguir colhendo e regular no domingo. A colhedora volta para o talhão 2 do jeito que estava. Até domingo, são uns 400 hectares colhidos com perda alta: perto de 600 sacas no chão, que vão nascer no meio do milho. A colheita fica em dia com a previsão.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você foi ao barracão antes das 8h30. Ainda tinha orvalho na lavoura: a colhedora não ia sair antes das dez de qualquer jeito, e a conversa não roubou hora de máquina.
  • Entre 8h30 e 10h30: Você foi ao barracão depois das 8h30. O orvalho já tinha secado. O Gilmar esperava, com a máquina ligada e o olho no céu, cada minuto contando contra a quinta.
  • Depois das 10h30: O barracão ficou para depois das 10h30. O Gilmar cansou de esperar e saiu para o talhão 2 do jeito que estava. O que quer que tenha sido decidido depois, a manhã inteira foi colhida com a plataforma desregulada.

Sala do produtor: O milho fora da janela

Seu Valdir quer plantar milho safrinha nos 1.800 hectares, logo atrás da colhedora. O problema são os talhões de soja tardia: eles só vão ser colhidos em meados de fevereiro, e milho plantado tão tarde ali sai do zoneamento de risco. Fora do zoneamento, não tem seguro nem a taxa de juros do custeio.

Ele precisa da sua assinatura no plano para levar ao banco. "Ano passado choveu até maio. Vai dar."

  • Assinar o plano com a área inteira. Você assina com uma ressalva escrita sobre os talhões tardios. O banco financia o que está no zoneamento; os 510 hectares de fora vão com dinheiro do próprio Seu Valdir. Se chover até maio, ele terá razão. Se a geada vier em junho, quem escreveu a ressalva foi você.
  • Recomendar cobertura nos tardios. Você propõe milho só onde a janela permite e capim de cobertura nos talhões tardios. Seu Valdir ouve, faz a conta da receita que deixou de ter e assina. "Se chover até maio, vou lembrar disso." Vai lembrar mesmo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você entrou antes das 10h. Seu Valdir ainda não tinha ligado para o gerente do banco. Deu para discutir o plano antes de ele virar pedido de crédito.
  • Entre 10h e 14h: Você entrou depois das 10h. Ele já tinha adiantado ao gerente do banco a área inteira. Mudar alguma coisa agora era desdizer um número dito em voz alta.
  • Depois das 14h: O plano ficou para depois das 14h. Seu Valdir mandou ao banco um rascunho sem a sua assinatura, para não perder o dia. O que quer que tenha sido combinado depois, o gerente já tinha visto o primeiro número.

Refeitório: Café, e a agronomia vista do trator

Dois tratoristas estão na mesa comprida do refeitório, de botina e boné.

“…agrônomo chega de caminhonete, olha folha, escreve no papel e vai embora. Quem passa a noite na lavoura é a gente.”

O Gilmar está entre eles e não diz nada. Quinze minutos depois, você sai do refeitório lembrando que cada recomendação sua vira o dia de trabalho de alguém.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a cooperativa ligou. O caminhão do calcário fecha às duas.
  • …o pulverizador tá de tanque cheio esperando pra saber pra onde vai.
  • …o Gilmar disse que a máquina tá jogando soja fora. Tá esperando alguém olhar.
  • …o Seu Valdir já falou com o gerente do banco. Diz que esse ano planta tudo.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Aplicar nos 510 hectares tardios agora” e “Recomendar cobertura nos tardios”: No mesmo dia, você gastou R$ 92 mil em fungicida e tirou do Seu Valdir o milho de 510 hectares. As duas decisões tinham motivo. No fim do mês, ele somou as duas na mesma folha.
  • Se você escolheu “Aplicar no talhão 7 e voltar em três dias” e “Assinar o plano com a área inteira”: Os talhões tardios ficaram para ser olhados a cada três dias e vão receber milho sem seguro. Toda a aposta do ano está nos mesmos 510 hectares, e a fazenda inteira sabe quais são.
  • Se você escolheu “Seguir colhendo e regular no domingo” e “Assinar o plano com a área inteira”: A colhedora seguiu sem parar e o milho entrou logo atrás dela, como o Seu Valdir queria. Em março, a soja perdida na colheita nasceu no meio do milho, e o tratorista passou dois dias catando planta de soja na safrinha.
  • Se você escolheu “Parar a colhedora e regular hoje” e “Aplicar nos 510 hectares tardios agora”: Colhedora parada para regular e pulverizador fora três dias: a fazenda tinha duas máquinas e as duas estavam presas a decisões suas. Na quinta choveu, e faltavam 40 hectares para colher.

Como o dia termina

Você foi para o laudo primeiro.

Havia ferrugem na lavoura, uma colhedora perdendo grão e um produtor querendo assinatura, e você abriu o laudo do laboratório. Passou 1h20 dividindo soma de bases por CTC.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do que ninguém estava cobrando hoje e decide a safra do ano que vem. Fertilidade do solo é isso: uma conta feita agora que só aparece na colheita seguinte.

Você foi para a lavoura primeiro.

Você começou pelo talhão 7, onde a doença já estava na folha. Passou 50 min entre gastar para proteger tudo e gastar só onde viu.

Assistência técnica de campo vive essa conta: o produto custa hoje, a perda que ele evita nunca aparece, e o produtor só vê a primeira.

Você foi para a máquina primeiro.

Você começou pelo barracão, com o operador e a plataforma da colhedora. Passou 45 min pesando grão no chão contra hora de colheita antes da chuva.

Engenharia agrícola é isso: a máquina certa, regulada, no tempo certo. Quando funciona, ninguém percebe; quando falha, a perda está no chão, à vista de todo mundo.

Você foi para o produtor primeiro.

Você começou pela sala do Seu Valdir, onde estava o plano da safra inteira e uma assinatura sua. Passou 40 min entre a receita que ele queria e o risco que só você estava vendo.

Planejar safra é decidir antes de saber o clima, e responder pela decisão depois que o clima decide.

As três portas da agronomia

Agronomia não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela cultura.

  • Assistência técnica de campo. Diagnosticar no solo e na folha, recomendar na medida certa e acompanhar safra após safra.
  • Engenharia agrícola. Máquinas, armazenagem e estruturas: fazer a fazenda funcionar no tempo que o clima dá.
  • Planejamento de safra. Decidir o que plantar, quando e com que risco, antes de saber como vai ser o ano.