Um dia na pele de
O confinamento numa segunda-feira
Você cuida do rebanho de um confinamento de gado de corte no interior de Goiás: 2.000 bois em 12 baias, comendo duas vezes por dia uma mistura que você calculou, até o peso que o frigorífico paga. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Pecuária não se resolve no escritório: o boi está no curral, a comida está na fábrica de ração, o dinheiro está na sala do produtor. Andar pela fazenda leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fazer o boi engordar no prazo sem deixar o atalho virar doença ou prejuízo.
Profissões com um dia assim: Médico Veterinário Rural · Nutricionista Animal
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
O confinamento numa segunda-feira: o dia por escrito
Você cuida do rebanho de um confinamento de gado de corte no interior de Goiás: 2.000 bois em 12 baias, comendo duas vezes por dia uma mistura que você calculou, até o peso que o frigorífico paga. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Pecuária não se resolve no escritório: o boi está no curral, a comida está na fábrica de ração, o dinheiro está na sala do produtor. Andar pela fazenda leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Escritório da fazenda: Quem chega a 540
O frigorífico abriu a escala de abate para daqui a 30 dias e paga cheio só o boi com 540 quilos ou mais. O comprador liga às 11h para saber quantos lotes a fazenda manda. A planilha de pesagem de sexta está aberta: o peso médio de cada baia e quanto cada uma ganha por dia.
O produtor já disse, de passagem, que manda "as doze". Vale fazer a conta antes de dizer isso ao comprador.
Ache as baias que não chegam a 540 kg em 30 dias. São essas três. A B05 é das mais pesadas hoje e ganha tão pouco que fica em 538. A B02 e a B08 ficam em 538 e 539. A B10, a mais leve da planilha, ganha 2,2 por dia e passa dos 540. O peso de hoje não diz quem chega; a conta com o ganho diz. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h: Você fechou a escala antes das 8h. Deu tempo de mudar a dieta das três baias ainda no trato da tarde, com mais energia, e de ligar ao comprador antes de ele ligar. A escala saiu com nove baias certas e três com data nova.
- Entre 8h e 11h: Você fechou a escala depois das 8h. O produtor já tinha mandado áudio ao comprador falando em doze baias. Você corrigiu o número no meio da manhã, e o comprador anotou a fazenda como "aquela que muda a escala".
- Depois das 11h: A escala ficou para depois das 11h. O comprador ligou às 11h e o produtor confirmou as doze. Daqui a 30 dias, três baias vão chegar abaixo do peso, e o frigorífico desconta na hora da balança, não na conversa.
Fábrica de ração: A face com mofo
O tratador abriu uma face nova da trincheira de silagem de milho e achou uma faixa branca e quente no meio: mofo, de onde a lona rasgou em agosto. O vagão misturador já está ligado, esperando para fazer o trato de 2.000 bois.
A silagem é metade da dieta. Sem ela, a mistura muda, e boi estranha comida diferente por dois ou três dias.
- Descartar a face inteira e comprar silagem do vizinho. O tratador tira com a pá carregadeira a face inteira, e você fecha com o vizinho 40 toneladas de silagem de outro milho. O trato atrasa uma hora. Nos próximos dias, o consumo cai um pouco enquanto os bois se acostumam, e você vai ver isso no ganho da próxima pesagem.
- Tirar a faixa com mofo e usar o resto da face. Vocês retiram a faixa branca e mais meio metro em volta, e o resto entra no vagão como sempre. O trato sai na hora. Você pede ao tratador que anote quanto sobra no cocho de cada baia nos próximos três dias: se o boi rejeitar, é ali que vai aparecer.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 7h30: Você foi à fábrica de ração antes das 7h30. O vagão ainda não tinha carregado. O que fosse decidido valia para o trato da manhã inteiro.
- Entre 7h30 e 12h30: Você foi à fábrica de ração depois das 7h30. O tratador não podia segurar os bois sem comida e fez o trato da manhã com a silagem como estava. A sua decisão valeu do trato da tarde em diante.
- Depois das 12h30: A fábrica de ração ficou para depois das 12h30. Os dois tratos do dia saíram com a face aberta do jeito que estava, e ninguém disse ao tratador o que fazer com a faixa branca. O que quer que se decidisse depois, decidia sobre um dia de comida já no cocho.
Curral do confinamento: Seis bois de oitenta
O lote que chegou há 20 dias, depois de dois dias de caminhão, tem seis bois de cabeça baixa, nariz escorrendo e tosse. O peão já separou os seis no tronco. Você mede: febre em todos. É a pneumonia de boi recém-chegado, a doença que mais mata em confinamento.
Os outros 74 estão comendo. Por enquanto.
- Medicar o lote inteiro de 80. Os 80 passam pelo tronco e recebem antibiótico de dose única. O lote perde a manhã no curral de manejo e come menos no dia. Você registra o tratamento, a carência e o motivo: o produtor vai ver o custo, e o frigorífico, um dia, vai perguntar quanto antibiótico a fazenda usa.
- Tratar os seis, isolar e medir a febre de todos amanhã. Os seis vão para a baia enfermaria com antibiótico e anotação no brinco. O lote volta para a baia. Amanhã cedo o peão passa os 74 no tronco para medir temperatura. Se aparecerem mais dez, o tratamento em massa vai acontecer do mesmo jeito, um dia depois.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h: Você foi ao curral antes das 8h. Os seis ainda estavam no tronco onde o peão tinha separado. A decisão foi tomada com os bois na sua frente, antes do sol esquentar o curral.
- Entre 8h e 12h: Você foi ao curral depois das 8h. O peão cansou de esperar e soltou os seis de volta na baia. Para examinar, foi preciso separar de novo, com o lote agitado e o calor do meio da manhã.
- Depois das 12h: O curral ficou para depois do meio-dia. Os seis passaram a manhã na baia com os outros 74, dividindo o cocho e o bebedouro. O que quer que tenha sido feito depois, foi feito num lote que teve meio dia a mais de contato.
Sala do produtor: Boi magro barato
O Seu Valdir, dono da fazenda, está com o catálogo do leilão de sábado aberto na mesa: 300 bois magros, o preço da reposição caiu e ele quer encher as três baias que vão vagar no mês que vem. "Você que sabe se dá de comer."
A silagem estocada dá para a lotação de hoje até a próxima safra. Com mais 300 bois, alguma coisa da dieta tem de mudar.
- Comprar os 300 e trocar parte da silagem por grão. Você refaz a conta da dieta com mais milho grão e menos silagem para todo mundo. O Seu Valdir compra os 300. O custo da arroba produzida sobe, e a margem do ano passa a depender de o preço do boi gordo não cair até o abate.
- Comprar 150, o que a silagem aguenta. O Seu Valdir compra 150 e reclama que vai deixar boi barato na mesa do leiloeiro. A dieta não muda. Uma baia e meia fica vazia até a próxima safra, e o produtor vai lembrar disso se o preço da reposição subir em março.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você entrou antes das 9h. O Seu Valdir ainda não tinha ligado para o leiloeiro. A conversa aconteceu antes de qualquer lance virar compromisso.
- Entre 9h e 13h: Você entrou depois das 9h. O Seu Valdir já tinha deixado um lance prévio com o leiloeiro. O que você dissesse ia mexer num número que ele já tinha dado.
- Depois das 13h: A sala do produtor ficou para depois das 13h. O Seu Valdir saiu para a cidade às 13h e mandou mensagem pedindo a resposta por escrito. A conta da dieta virou duas linhas no celular dele.
Refeitório: Café, e o confinamento visto do curral
Dois peões estão terminando o café com pão.
“…doutor vem, olha, manda dar remédio e vai embora. Quem passa o dia com o boi é a gente.”
Foi um deles que viu primeiro o boi de cabeça baixa, às cinco da manhã, antes de qualquer planilha. Quinze minutos depois, você volta com isso: quem enxerga o rebanho todo dia está no curral, e o que ele vê só chega até você se ele achar que vale contar.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o Seu Valdir disse que manda as doze baias pro frigorífico.
- …o vagão tá parado esperando. Tem uma parte branca na silagem.
- …aquele lote que chegou de Mato Grosso amanheceu tossindo.
- …o patrão tá com o catálogo do leilão na mesa desde cedo.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Descartar a face inteira e comprar silagem do vizinho” e “Comprar os 300 e trocar parte da silagem por grão”: Na mesma segunda, você comprou silagem do vizinho e mandou trocar silagem por grão para caber mais 300 bois. A dieta do confinamento mudou duas vezes em uma semana, e a próxima pesagem vai mostrar as duas mudanças juntas, sem dizer qual foi qual.
- Se você escolheu “Tirar a faixa com mofo e usar o resto da face” e “Tratar os seis, isolar e medir a febre de todos amanhã”: Você aproveitou a silagem tirando só o mofo visível e tratou só os seis bois com febre. Duas apostas de que o problema era do tamanho que aparecia. Nos próximos três dias, o cocho e o termômetro vão responder.
- Se você escolheu “Medicar o lote inteiro de 80” e “Comprar os 300 e trocar parte da silagem por grão”: Você medicou 80 bois de uma vez e o produtor comprou mais 300 no leilão. Os 300 vão chegar de caminhão, como chegou o lote que adoeceu, e o Seu Valdir já perguntou se vai ser antibiótico para todo mundo de novo.
- Se você escolheu “Tratar os seis, isolar e medir a febre de todos amanhã” e “Comprar 150, o que a silagem aguenta”: Você segurou o antibiótico e segurou a compra. Na mesma segunda, duas vezes você escolheu fazer menos e olhar de novo depois. O Seu Valdir notou, e vai lembrar disso se o preço do boi magro subir.
Como o dia termina
Você foi para a planilha primeiro.
Havia um vagão esperando, seis bois com febre e um produtor com o catálogo na mesa, e você abriu a pesagem de sexta. Passou 1h20 fazendo, baia por baia, a conta que o produtor tinha resolvido de cabeça.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás do número antes da conversa. Em nutrição de confinamento, o trabalho é esse: transformar comida em quilo no prazo, e saber antes de todo mundo quando não vai dar.
Você foi para a ração primeiro.
Você começou pela fábrica de ração, onde 2.000 bois esperavam o mesmo trato. Passou 50 min entre a faixa branca da silagem e o vagão ligado.
Quem formula dieta vive isso: a fórmula do papel depende de um milho colhido meses antes, guardado debaixo de uma lona que um dia rasga.
Você foi para o curral primeiro.
Você começou pelos seis bois no tronco. Passou 1h00 com o termômetro na mão, decidindo quanto antibiótico vale para segurar o que ainda não apareceu.
Medicina veterinária de produção é isso: cuidar do animal que está na frente pensando no rebanho inteiro, e no que vai parar na carne de quem compra.
Você foi para o produtor primeiro.
Você começou pela sala onde o dinheiro da fazenda estava sendo decidido. Passou 40 min transformando um catálogo de leilão em conta de comida.
Gestão de pecuária é isso: o boi magro barato só é barato se a fazenda tiver como engordar, e quem responde por isso é quem conhece a dieta.
As três portas da pecuária
Pecuária não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pelo animal.
- Nutrição animal. Transformar comida em quilo no prazo: a dieta é a maior conta da fazenda.
- Sanidade do rebanho. Cuidar do animal na frente pensando no rebanho e no alimento de quem compra.
- Gestão da produção. Decidir quanto boi entra, quando sai e quanto custa cada quilo no meio.