Um dia na pele de
Uma segunda de gestão numa fazenda de grãos
Você é o gestor da Fazenda Santa Rita, em Sorriso, Mato Grosso: 3.200 hectares de soja e milho, 22 funcionários, uma frota de máquinas e uma família dona que mora em Cuiabá e liga toda segunda. Você não planta nem colhe: cuida para que plantar e colher deem dinheiro. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no escritório: está no talhão, no barracão, na sala do dono. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Fazer a fazenda dar lucro num negócio em que o preço e o céu não são seus.
Profissões com um dia assim: Gestor de Fazenda
Ler o dia inteiro (contém os desfechos)
Uma segunda de gestão numa fazenda de grãos: o dia por escrito
Você é o gestor da Fazenda Santa Rita, em Sorriso, Mato Grosso: 3.200 hectares de soja e milho, 22 funcionários, uma frota de máquinas e uma família dona que mora em Cuiabá e liga toda segunda. Você não planta nem colhe: cuida para que plantar e colher deem dinheiro. Nesta segunda-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.
Quase nada se resolve no escritório: está no talhão, no barracão, na sala do dono. Andar até lá leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.
Escritório técnico: As máquinas que bebem demais
O diesel é o segundo maior custo da fazenda, depois do adubo. O relatório do mês mostra, para cada máquina, as horas de motor e os litros abastecidos. O fabricante diz quanto cada uma gasta por hora.
A regra da fazenda: máquina que passa 20% do consumo de referência vai para a oficina e tem o abastecimento conferido. Pode ser bico entupido, pode ser diesel saindo da fazenda na garrafa. A família quer o relatório hoje, antes do almoço.
Ache as máquinas que gastaram mais de 20% acima da referência por hora. São essas quatro. Trator 2: 26 litros por hora, contra um limite de 21,6. Colhedora 2: 41 contra 38,4. Caminhão: 12 contra 10,8, o que menos gasta em litros e o que mais passou da conta. Motoniveladora: 20 contra 18. O Trator 3 é o que mais bebe em litros na lista de tratores, e está dentro. Cada tentativa errada custa 5 minutos.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 9h: Você achou antes das 9h. Deu tempo de cruzar os quatro com as notas do posto da fazenda. O caminhão e a motoniveladora foram abastecidos pelo mesmo funcionário, nos mesmos sábados.
- Entre 9h e 11h30: Você achou depois das 9h. O relatório chegou à família antes do almoço, com as quatro máquinas marcadas, mas sem ninguém ter olhado as notas de abastecimento ainda.
- Depois das 11h30: O diesel ficou para depois das 11h30. A família ligou ao meio-dia e perguntou pelo relatório. O que quer que tenha sido achado depois, chegou a Cuiabá como atraso, e a primeira pergunta foi por que ninguém tinha visto antes.
Sala do dono: R$ 131 a saca, para março
A trading oferece comprar agora, com preço travado, 30% da soja que vai ser colhida em março: R$ 131 a saca, contra R$ 128 hoje. Com isso, a fazenda paga o adubo e as parcelas das máquinas sem depender do preço de março.
O Henrique, filho da dona, que estudou economia, acha que a soja vai subir com a seca nos Estados Unidos e quer esperar. A oferta vale até as 14h.
- Travar os 30% a R$ 131. Você fecha o contrato pelo telefone, com o Henrique na sala. Os 30% estão vendidos, e o adubo e as máquinas estão pagos qualquer que seja o preço de março. O Henrique diz que vai lembrar de hoje se a soja passar de 140.
- Esperar, como quer o Henrique. Você agradece à trading e não fecha. O Henrique sorri. A safra inteira fica sem preço até março, e as parcelas das máquinas, que vencem em abril, dependem dele. Você anota no caderno o preço de hoje.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h: Você foi à sala do dono antes das 10h. O Henrique ainda estava com o café e os gráficos abertos no notebook. Deu para olhar os números juntos, sem pressa.
- Entre 10h e 14h: Você foi à sala do dono depois das 10h. O corretor da trading já tinha ligado duas vezes, e o preço tinha caído um real. A conversa foi com a oferta encolhendo.
- Depois das 14h: A sala do dono ficou para depois das 14h. A oferta da trading venceu às 14h. O que quer que tenha sido decidido depois, a decisão foi tomada pelo relógio: a safra ficou sem preço.
Barracão de máquinas: Mil e quinhentos a mais
O Zé Carlos, 61 anos, é o operador de colhedora mais experiente da fazenda: em 18 anos, nunca quebrou uma máquina na colheita. Uma fazenda vizinha ofereceu R$ 1.500 a mais por mês. Ele gosta daqui, mas tem uma neta para ajudar na faculdade.
A fazenda tem uma tabela de salários para os 14 operadores. Cobrir a proposta põe o Zé Carlos acima de todos, e a tabela é conhecida de todo mundo no barracão.
- Cobrir a proposta. Você cobre os R$ 1.500. O Zé Carlos aperta a sua mão e volta para a colhedora. Na sexta, dois operadores mais novos pedem para conversar sobre salário, com a mesma frase: "ouvi dizer que agora dá para negociar".
- Manter a tabela e oferecer o que ela permite. Você oferece o que a tabela permite: um bônus por safra sem quebra de máquina, igual para todos. O Zé Carlos agradece e diz que vai pensar até sexta. Você começa, por via das dúvidas, a pensar em quem senta na colhedora 1 em março.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 8h30: Você foi ao barracão antes das 8h30. O Zé Carlos ainda não tinha respondido à outra fazenda. A conversa foi entre os dois, perto da colhedora.
- Entre 8h30 e 12h: Você foi ao barracão depois das 8h30. O barracão inteiro já sabia da proposta. Você conversou com o Zé Carlos com os outros operadores fingindo que não ouviam.
- Depois das 12h: O barracão ficou para depois do meio-dia. O Zé Carlos ligou para a outra fazenda na hora do almoço e marcou uma visita para amanhã. O que quer que tenha sido oferecido depois, chegou como contraproposta.
Talhão 12: Trinta ou quarenta e cinco
O granizo de sábado atingiu 80 hectares do talhão 12. O perito da seguradora está lá desde cedo e fecha o laudo hoje: perda de 30%. O chefe de campo, que anda o talhão há 15 anos, conta 45%, porque muitas vagens caíram e ainda não secaram no chão.
Aceitar o laudo paga o seguro em 15 dias. Contestar pede uma segunda perícia, que leva até 60 dias, e o talhão não pode ser colhido até ela acontecer.
- Aceitar os 30%. Você assina o laudo. O seguro paga R$ 380 mil em duas semanas, e o talhão 12 entra na colheita com os outros. Pela conta do chefe de campo, uns R$ 190 mil de perda ficam por conta da fazenda.
- Contestar e pedir a segunda perícia. Você registra a contestação com as fotos das vagens no chão. O perito anota, sem discutir. A segunda perícia é marcada para daqui a 40 dias, e o talhão 12 fica fora da colheita até lá, com a soja secando no pé.
O que acontece conforme a hora em que você chega
- Antes das 10h30: Você foi ao talhão antes das 10h30. O perito ainda estava contando vagens, e você contou junto com ele, linha por linha, numa amostra.
- Entre 10h30 e 14h30: Você foi ao talhão depois das 10h30. O perito já tinha fechado as amostras e estava preenchendo o laudo no capô da caminhonete. Você chegou para ler, não para contar.
- Depois das 14h30: O talhão ficou para depois das 14h30. O perito deixou o laudo com o chefe de campo e foi para a próxima fazenda. O que quer que tenha sido decidido depois, foi sobre um papel, sem o perito por perto para responder.
Refeitório: Café, e o gestor visto do refeitório
Dois tratoristas almoçam cedo, porque entram no turno da noite na colheita.
“…o gestor não sabe nem regular uma plantadeira. Mas quando atrasou o salário na outra fazenda, aqui nunca atrasou.”
O outro concorda com a boca cheia. Quinze minutos depois, você volta ao escritório pensando que o seu trabalho é esse: o que não atrasa.
O que se ouve de passagem
Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.
- …o Zé Carlos recebeu proposta da fazenda do lado. Mil e quinhentos a mais.
- …o Henrique tá dizendo que a soja vai subir. A trading liga de novo às duas.
- …o perito do seguro tá no talhão 12 desde cedo. O chefe de campo não gostou da conta dele.
- …tem gente levando diesel em garrafa nos fins de semana. Todo mundo sabe, ninguém fala.
O que vem depois das escolhas
- Se você escolheu “Esperar, como quer o Henrique” e “Contestar e pedir a segunda perícia”: Na mesma segunda, a safra ficou sem preço e o seguro do granizo ficou para daqui a 40 dias. A família perguntou, na ligação da noite, de onde sai o dinheiro do adubo de novembro.
- Se você escolheu “Travar os 30% a R$ 131” e “Aceitar os 30%”: Com o preço travado e o seguro pago em 15 dias, o caixa do ano fechou em uma segunda-feira. O que a fazenda deixou de ganhar com a alta e com os 15% do granizo não aparece em nenhum extrato.
- Se você escolheu “Cobrir a proposta”: O Zé Carlos colheu a safra inteira sem quebrar a colhedora, como sempre. Em abril, a tabela de salários foi refeita do zero, porque três operadores tinham negociado sozinhos.
- Se você escolheu “Manter a tabela e oferecer o que ela permite” e “Esperar, como quer o Henrique”: Você manteve a tabela e deixou a safra sem preço no mesmo dia. Em março, a colheita vai depender de quem senta na colhedora 1 e de quanto o mercado vai pagar, e você não decide nenhum dos dois.
Como o dia termina
Você foi para o diesel primeiro.
Havia uma oferta pela safra, um operador indo embora e um perito no talhão, e você abriu o relatório de diesel. Passou 1h10 dividindo litros por horas, máquina por máquina.
Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi para o custo que escorre sem ninguém ver. Gestão de fazenda é muito isso: a margem do agro é fina, e ela some em litro, em hora e em garrafa.
Você foi para a venda primeiro.
Você começou pela sala do dono, com um preço oferecido para uma soja que ainda está no pé. Passou 40 min entre a conta paga e a alta que pode vir.
Comercializar safra é isso: decidir quando vender algo que ainda não existe, a um preço que ninguém controla.
Você foi para o barracão primeiro.
Você começou pelo Zé Carlos, com 18 anos de colheita e uma proposta no bolso. Passou 45 min entre segurar a pessoa e segurar a regra.
Gestão da operação também é isso: a fazenda mais moderna ainda depende de quem senta na máquina às quatro da manhã.
Você foi para o granizo primeiro.
Você começou pelo talhão 12, com duas contas diferentes para a mesma perda. Passou 55 min entre o dinheiro rápido e o dinheiro inteiro.
Risco no agro é isso: seguro, crédito e laudo, porque o céu decide uma parte do resultado e alguém precisa pagar por ela.
As três portas dos Negócios do Agro
Negócio do agro não é plantar, são três trabalhos, e eles se separam pelo que você protege: o custo, o preço ou o risco.
- Gestão da operação. Fazer a fazenda funcionar: custos, máquinas, gente e calendário.
- Comercialização e trading. Vender a safra: quando, por quanto e para quem, num preço que ninguém controla.
- Seguro e crédito rural. Financiar a safra e proteger a fazenda do clima e do mercado.