🧪 Estamos em fase de testesDeixe seu feedback e sugestões →

Um dia na pele de

Uma quinta de agosto numa floresta de eucalipto

Você é o engenheiro florestal de uma unidade de 22 mil hectares de eucalipto no leste de Mato Grosso do Sul. Toda a madeira daqui vai para uma fábrica de celulose a 90 quilômetros, que não para nem no Natal. É agosto: faz 40 dias que não chove, o plantio de reforma está no meio e a colheita corre para fechar o mês. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no escritório: está no talhão, no barracão, na sala do gerente. Andar pela sede leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Entregar madeira para a fábrica sem queimar, derrubar ou atropelar o que está em volta.

Profissões com um dia assim: Engenheiro Florestal

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

Uma quinta de agosto numa floresta de eucalipto: o dia por escrito

Você é o engenheiro florestal de uma unidade de 22 mil hectares de eucalipto no leste de Mato Grosso do Sul. Toda a madeira daqui vai para uma fábrica de celulose a 90 quilômetros, que não para nem no Natal. É agosto: faz 40 dias que não chove, o plantio de reforma está no meio e a colheita corre para fechar o mês. Nesta quinta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

Quase nada se resolve no escritório: está no talhão, no barracão, na sala do gerente. Andar pela sede leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Escritório florestal: Os talhões que não crescem

Às 15h tem reunião com o planejamento da fábrica para fechar a lista de reforma: os talhões que, depois de colhidos, vão ser replantados com o clone novo, em vez de deixar a brotação da cepa velha. A equipe de inventário mediu as parcelas de doze talhões na semana passada.

A regra da empresa: vai para a reforma o talhão que cresce menos de 30 metros cúbicos por hectare por ano. O inventário não traz essa conta. Traz o volume de madeira por hectare e a idade, e o crescimento médio é um dividido pelo outro.

Ache os talhões que crescem menos de 30 m³ por hectare por ano. São esses três: T02 e T08 com 28 m³ por hectare por ano, e o T05 com 29. O T05 engana: tem um dos maiores volumes da unidade, mas levou nove anos para chegar lá. O T06, com pouca madeira, tem só quatro anos e cresce 35. E o T09 bate 30 exatos: não entra. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h30: Você achou antes das 10h30. Deu tempo de ligar para o viveiro e confirmar que há muda do clone novo para os 455 hectares. Você entrou na reunião das 15h com a lista e com as mudas.
  • Entre 10h30 e 15h: Você achou depois das 10h30. A lista ficou pronta para a reunião, mas o viveiro só confirmou muda para dois dos três talhões. O terceiro entra na reforma de março, se sobrar muda.
  • Depois das 15h: O inventário ficou para depois das 15h. A reunião com a fábrica fechou a lista de reforma sem os números da sua unidade. Os talhões que crescem pouco vão brotar da cepa velha por mais sete anos.

Talhão 14: Fumaça do lado de lá

O vigia da torre avisou pelo rádio: tem fumaça no pasto do vizinho, encostado na divisa do talhão 14. O talhão foi replantado há quatro meses, as mudas estão na altura do joelho e o aceiro entre os dois terrenos tem oito metros de terra limpa. A umidade do ar está em 22% e vai cair à tarde.

A brigada está no talhão 31, a meia hora daqui, ajudando no plantio. É a única equipe com o caminhão-pipa.

  • Trazer a brigada e o pipa para a divisa agora. A brigada chega em meia hora e fica de prontidão no aceiro com o caminhão-pipa. O fogo do vizinho queima o pasto até a cerca e apaga sozinho na terra limpa. O plantio do talhão 31 para: são 40 hectares de muda que esperam mais um dia no viveiro, em pleno agosto.
  • Deixar a torre vigiando e ligar para o vizinho. O vizinho atende e diz que é queima de lixo, que já está controlada. A torre passa a informar a fumaça a cada quinze minutos. O plantio do talhão 31 fecha o dia. Se o vento tivesse virado, a brigada estaria a meia hora do fogo.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você foi ao talhão antes das 8h30. O orvalho ainda segurava o capim seco e o vento estava fraco. Deu para olhar a fumaça de perto e decidir com tempo de sobra.
  • Entre 8h30 e 11h: Você foi ao talhão depois das 8h30. O sol já tinha secado o capim e a fumaça estava mais alta. Você decidiu ouvindo o vigia contar a direção do vento pelo rádio, de cinco em cinco minutos.
  • Depois das 11h: O talhão 14 ficou para depois das 11h. Ninguém da engenharia foi à divisa de manhã. O vigia e o encarregado do plantio decidiram sozinhos, pelo rádio, e o relatório da torre chegou à sua mesa com a pergunta de por que ninguém foi ver.

Barracão de máquinas: O atalho pela nascente

O Valmir, dono da empreiteira que colhe para a unidade, está no barracão com o mapa aberto em cima do harvester. A fábrica pediu 3 mil metros cúbicos a mais até o fim do mês. Ele quer colher o talhão 9 e tirar a madeira por um carreador antigo que já existe, mas que passa pela borda da área de preservação de uma nascente.

O caminho pela volta exige abrir um carreador novo: dois dias de trator. A auditoria da certificação florestal vem daqui a duas semanas.

  • Liberar o carreador antigo, com cuidado. O Valmir põe o forwarder no carreador antigo na mesma tarde. A madeira do talhão 9 sai em quatro dias e a fábrica recebe o volume extra. Na borda da nascente ficam as marcas dos pneus, que a chuva de setembro não vai apagar antes da auditoria.
  • Mandar abrir o carreador novo pela volta. O trator abre o carreador novo em dois dias, e o harvester do Valmir fica parado esperando. Ele cobra a máquina parada, como diz o contrato. A fábrica recebe o volume extra no último dia do mês, sem folga nenhuma.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h: Você foi ao barracão antes das 9h. O Valmir ainda não tinha mandado a equipe para lugar nenhum. A conversa aconteceu antes de qualquer máquina se mexer.
  • Entre 9h e 13h: Você foi ao barracão depois das 9h. A equipe do Valmir já estava no ônibus esperando a decisão. Cada hora parada entrou na conta do mês, que vem com o nome da unidade.
  • Depois das 13h: O barracão ficou para depois das 13h. O Valmir esperou a manhã inteira e mandou a equipe colher outro talhão, mais longe da fábrica. O que quer que tenha sido decidido depois, o frete daquela madeira saiu mais caro.

Sala do gerente: Os caminhões na porta da escola

A Dona Rosângela, presidente da associação do assentamento vizinho, está na sala do gerente com um pote de vidro cheio de pó vermelho. Os caminhões de madeira passam pela estrada de terra em frente à escola do assentamento, 60 viagens por dia, e as crianças tossem.

O gerente olha para você. A rota pelos fundos existe, mas tem 18 quilômetros a mais por viagem.

  • Mudar a rota pelos fundos. A partir de segunda, os caminhões dão a volta pelos fundos. A Dona Rosângela agradece e leva o pote de volta. São R$ 70 mil a mais de frete por mês, e o gerente pede que você escreva por que, para mandar à diretoria.
  • Manter a rota, molhar a estrada e parar no horário da escola. Fica combinado: o caminhão-pipa molha a estrada duas vezes por dia e nenhum caminhão passa na entrada e na saída das crianças. A Dona Rosângela aceita e avisa que vai anotar cada dia que o pipa não passar.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você entrou antes das 10h. A Dona Rosângela ainda estava no primeiro café com o gerente. A conversa começou como conversa, não como reclamação formal.
  • Entre 10h e 14h: Você entrou depois das 10h. Ela esperou duas horas na recepção e, nesse tempo, mandou a foto do pote para o grupo do assentamento. Você chegou numa conversa que já tinha plateia.
  • Depois das 14h: A associação ficou para depois das 14h. A Dona Rosângela foi embora antes de falar com a engenharia e deixou uma carta com o gerente, com cópia para a certificadora. O que quer que tenha sido combinado depois, a reclamação já estava no papel.

Refeitório: Café, e a floresta vista de dentro da máquina

Dois operadores de harvester estão na mesa comprida do refeitório, de macacão laranja e protetor auricular no pescoço.

“…engenheiro olha o mapa e acha que talhão é quadrado. Lá dentro tem toco, tem buraco, tem formigueiro do tamanho de um carro.”

Um deles lembra que foi você quem mudou o carreador do talhão 5 no ano passado, e que ficou melhor. O outro não responde. Quinze minutos depois, você sai do refeitório lembrando que cada linha do mapa vira o dia de alguém dentro de uma cabine.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …a torre falou de fumaça lá pro lado do 14. Disse que é no pasto do vizinho.
  • …a fábrica quer saber hoje quais talhões vão pra reforma. A reunião é às três.
  • …o Valmir tá no barracão com a equipe parada. Quer passar pelo carreador velho.
  • …a moça do assentamento chegou com um pote de poeira na mão. Tá com o gerente.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Trazer a brigada e o pipa para a divisa agora” e “Manter a rota, molhar a estrada e parar no horário da escola”: O único caminhão-pipa da unidade ficou de prontidão na divisa do talhão 14 no mesmo dia em que você prometeu à associação que ele molharia a estrada da escola. À tarde, a estrada ficou seca, e a Dona Rosângela anotou o primeiro dia.
  • Se você escolheu “Trazer a brigada e o pipa para a divisa agora” e “Mandar abrir o carreador novo pela volta”: O plantio parou por um dia e a colheita vai esperar dois pelo carreador novo. Na mesma quinta, as duas frentes da unidade ficaram paradas por decisões suas, e a fábrica soube das duas pelo mesmo relatório.
  • Se você escolheu “Liberar o carreador antigo, com cuidado” e “Mudar a rota pelos fundos”: Você tirou os caminhões da porta da escola e pôs o forwarder na beira da nascente. Daqui a duas semanas, a auditoria da certificação vai ver as duas coisas, e vai perguntar sobre as duas.
  • Se você escolheu “Deixar a torre vigiando e ligar para o vizinho” e “Liberar o carreador antigo, com cuidado”: O plantio fechou o dia, a madeira do talhão 9 saiu e a fumaça do vizinho ficou com a torre. Nada parou nesta quinta. O que ficou foram as marcas de pneu na borda da nascente.

Como o dia termina

Você foi para o inventário primeiro.

Havia fumaça na divisa, um empreiteiro esperando e uma moradora com um pote de poeira na sala do gerente, e você abriu o inventário. Passou 1h20 dividindo volume por idade.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você foi atrás da conta que decide a floresta dos próximos sete anos. Manejo florestal é isso: o que se planta hoje só se colhe quando a decisão já foi esquecida.

Você foi para a fumaça primeiro.

Você começou pela divisa do talhão 14, onde um fogo que não era seu podia virar seu. Passou 50 min entre parar o plantio por segurança e confiar na torre e no aceiro.

Proteção florestal vive essa conta: a brigada parada custa todo dia, o incêndio que ela evita nunca aparece no relatório.

Você foi para a colheita primeiro.

Você começou pelo barracão, com o empreiteiro e o mapa em cima do harvester. Passou 45 min pesando a madeira que a fábrica pedia contra a borda de uma nascente.

Colheita e logística florestal é isso: cada metro cúbico tem que sair do talhão até a fábrica, e o caminho mais curto quase nunca é o que pode ser usado.

Você foi para a associação primeiro.

Você começou pela sala do gerente, onde uma moradora trazia a poeira dos seus caminhões num pote. Passou 40 min entre o frete do mês e a tosse das crianças da escola.

Certificação e relação com a comunidade é isso: a floresta está num lugar onde mora gente, e quem audita pergunta a essa gente o que ela acha.

As quatro portas da engenharia florestal

Engenharia florestal não é uma profissão só, são várias, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela árvore.

  • Inventário e manejo. Medir a floresta, fazer a conta do crescimento e decidir o que plantar e quando colher.
  • Proteção florestal. Fogo, praga e doença: vigiar o tempo todo para que o pior nunca aconteça.
  • Colheita e logística. Tirar a madeira do talhão e pôr na fábrica, no prazo, pelo caminho que pode ser usado.
  • Certificação e comunidade. Responder pela floresta diante de quem audita e de quem mora do lado dela.