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Um dia na pele de

A sexta da agricultura de precisão

Você cuida da agricultura de precisão de uma fazenda de soja de 1.800 hectares no oeste do Paraná: o voo de drone que mapeia a lavoura, o drone que aplica, a plantadeira que anda sozinha guiada por satélite e os mapas que tudo isso produz. É novembro, a soja acabou de nascer e os últimos talhões ainda estão por plantar. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O dado está no computador, mas a decisão está no talhão, no barracão e na sala do produtor. Andar pela sede leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Decidir pelo dado quando a lavoura, o vento e a máquina não esperam.

Profissões com um dia assim: Especialista em Agricultura de Precisão · Especialista em Sensoriamento Remoto · Especialista em Mapeamento com Drone · Piloto de Drone Agrícola

Ler o dia inteiro (contém os desfechos)

A sexta da agricultura de precisão: o dia por escrito

Você cuida da agricultura de precisão de uma fazenda de soja de 1.800 hectares no oeste do Paraná: o voo de drone que mapeia a lavoura, o drone que aplica, a plantadeira que anda sozinha guiada por satélite e os mapas que tudo isso produz. É novembro, a soja acabou de nascer e os últimos talhões ainda estão por plantar. Nesta sexta-feira, quatro coisas pedem você ao mesmo tempo, e você decide a ordem.

O dado está no computador, mas a decisão está no talhão, no barracão e na sala do produtor. Andar pela sede leva tempo, e esse tempo entra no relógio do seu dia.

Escritório técnico: A mancha que não é a mais clara

O voo multiespectral de ontem gerou o mapa de vigor da soja, o NDVI: quanto mais perto de 1, mais folha verde e viva. Você compara cada zona de manejo com a média dela no mesmo estágio, nas imagens de satélite das três safras anteriores.

Uma zona fraca não é problema se ela sempre foi fraca, porque o solo é arenoso. O problema é a zona que caiu em relação a ela mesma. O monitor de pragas sai a campo às 10h e só visita onde você mandar.

Ache as zonas em que o vigor caiu mais de 15% em relação à média delas nas três safras anteriores. São essas duas. A zona alta do T7 caiu de 0,70 para 0,57, e a do T12 de 0,68 para 0,56: as duas perderam mais de um sexto do vigor. A zona arenosa do T5 é a mais clara do mapa e está onde sempre esteve. O T7 é o talhão da lagarta. O T12, ninguém tinha olhado. Cada tentativa errada custa 6 minutos.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você achou antes das 10h. O monitor de pragas saiu às 10h com o T12 na rota. À tarde, ele mandou a foto: percevejo na bordadura, ainda pouco.
  • Entre 10h e 14h: Você achou depois das 10h. O monitor já tinha saído pela rota de sempre. Ele voltou ao T12 no fim da tarde, quando a luz já não ajudava a ver nada.
  • Depois das 14h: O mapa ficou para depois das 14h. O monitor de pragas fez a rota de sempre. O T12 ficou mais um dia sem ninguém pisar nele.

Talhão 7: O vento subindo

O piloto está no talhão 7 com o drone de pulverização carregado de inseticida para a lagarta. O anemômetro marca 9 km/h, e a previsão diz 15 às 10h. Acima de 10, a gota começa a ir para onde o vento quer.

A 400 metros, do lado de onde o vento sopra, o vizinho tem um apiário com 80 caixas de abelha.

  • Voar agora, com gota grossa e uma faixa sem aplicar do lado do apiário. O drone faz o talhão em duas horas, menos uma faixa de 30 metros do lado do vizinho. O vento sobe durante o voo. À tarde, o vizinho das abelhas liga perguntando o que foi aplicado e a que horas.
  • Cancelar e voar amanhã às 5h, sem vento. O piloto recolhe o drone e cobra a diária. A lagarta come mais um dia de soja no T7. Amanhã às 5h, o drone voa em ar parado, e o talhão inteiro é aplicado, inclusive a faixa do lado do apiário.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 8h30: Você foi ao talhão antes das 8h30. O vento ainda estava abaixo de 10 km/h. Qualquer decisão saiu com o ar ainda calmo.
  • Entre 8h30 e 10h: Você foi ao talhão depois das 8h30. O anemômetro já marcava 11. O piloto esperava com o drone ligado e a decisão foi tomada com o vento subindo.
  • Depois das 10h: O talhão ficou para depois das 10h. O piloto esperou a manhã inteira com o drone carregado e o vento subindo, e cobrou a espera. O que quer que tenha sido decidido, a diária de hoje já estava paga.

Barracão de máquinas: Dois centímetros ou quinze

A base de correção da fazenda parou: o raio de ontem queimou o rádio que manda o sinal que deixa o piloto automático da plantadeira com 2 centímetros de precisão. A peça chega na segunda.

Gilmar está no barracão com a plantadeira engatada e três talhões para plantar. A janela ideal de plantio fecha na semana que vem. Existe um sinal de correção pago, por satélite, que funciona hoje, com 15 centímetros.

  • Plantar hoje com o sinal de 15 centímetros. Gilmar planta os três talhões até domingo. As linhas saem com até 15 centímetros de desvio entre uma passada e outra. Na pulverização de dezembro, o pulverizador vai pisar soja nas emendas, e o mapa das linhas destes talhões não serve para o ano que vem.
  • Esperar a peça e plantar a partir de segunda. A plantadeira fica parada no barracão. Os três talhões são plantados de terça a quinta, com linhas de 2 centímetros. Plantados mais tarde, devem render um pouco menos, e o Seu Valdir faz essa conta em sacas na sua frente.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 9h30: Você foi ao barracão antes das 9h30. Gilmar ainda não tinha saído. Deu para decidir antes de a plantadeira chegar ao talhão.
  • Entre 9h30 e 12h: Você foi ao barracão depois das 9h30. Gilmar esperava no barracão com o motor ligado, e já tinha ligado duas vezes para o Seu Valdir.
  • Depois das 12h: O barracão ficou para depois do meio-dia. Gilmar perdeu a manhã de plantio esperando resposta. O que quer que tenha sido decidido, a sexta já tinha meio dia a menos.

Sala do produtor: Os mapas valem desconto

Seu Valdir está com a proposta da trading que compra a soja e vende os insumos da fazenda: 4% de desconto em adubo e defensivo, R$ 120 mil na safra, em troca dos mapas de produtividade e de vigor de todos os talhões.

"Você que cuida desses mapas. Eu assino ou não?" O representante volta às 15h.

  • Recomendar assinar, com uma cláusula sobre o uso dos dados. Seu Valdir assina com a cláusula que você escreveu: os mapas só servem para recomendação de insumo. Ele leva o desconto. A trading passa a saber, talhão por talhão, quanto a fazenda colhe, antes de negociar o preço do grão com ela.
  • Recomendar não assinar. Seu Valdir recusa e paga os insumos pelo preço cheio. Os mapas ficam na fazenda. No almoço, ele comenta que o vizinho assinou, e pergunta se você tem certeza.

O que acontece conforme a hora em que você chega

  • Antes das 10h: Você foi à sala do produtor antes das 10h. Seu Valdir ainda estava lendo a proposta. Deu tempo de ler junto e mostrar a ele o que os mapas dizem da fazenda.
  • Entre 10h e 15h: Você foi à sala do produtor depois das 10h. Seu Valdir já tinha conversado com o vizinho e chegou com a opinião dele pronta. Você falou depois de outra pessoa.
  • Depois das 15h: A sala do produtor ficou para depois das 15h. O representante chegou às 15h e o Seu Valdir conversou com ele sem você. O que quer que você tenha recomendado depois, chegou depois da conversa.

Refeitório: Café, e a precisão vista do trator

Dois tratoristas estão na mesa comprida do refeitório, com o copo de café na mão.

“…esse drone aí é brinquedo caro. Meu pai passava veneno com a bomba nas costas e colhia igual.”

O pai dele não colhia igual: a fazenda colhe 20 sacas a mais por hectare do que há vinte anos. Mas ninguém mostrou esse número a eles. Quinze minutos depois, você volta para o escritório pensando em quem, na fazenda, vê o mapa que você faz.

O que se ouve de passagem

Atravessar a empresa não é só deslocamento. No corredor as pessoas continuam falando, e o que elas dizem depende da hora e do que você ainda não resolveu. Nada disso custa tempo nem muda o dia.

  • …o monitor de pragas sai às dez. Vai fazer a rota de sempre se ninguém falar nada.
  • …o piloto do drone tá no sete olhando pro anemômetro.
  • …o Gilmar tá com a plantadeira engatada desde as sete, esperando o sinal.
  • …o vizinho assinou com a trading. O Seu Valdir tá pensando.

O que vem depois das escolhas

  • Se você escolheu “Cancelar e voar amanhã às 5h, sem vento” e “Esperar a peça e plantar a partir de segunda”: Você cancelou o voo e parou a plantadeira na mesma sexta. As duas decisões esperaram a condição certa, e o Seu Valdir viu o drone e a plantadeira parados na mesma manhã.
  • Se você escolheu “Voar agora, com gota grossa e uma faixa sem aplicar do lado do apiário” e “Recomendar assinar, com uma cláusula sobre o uso dos dados”: Você aplicou com o apiário do vizinho a 400 metros e entregou os mapas da fazenda à trading. Na mesma sexta, duas decisões suas passaram da cerca: uma pelo ar, outra por contrato.
  • Se você escolheu “Plantar hoje com o sinal de 15 centímetros” e “Recomendar não assinar”: Você aceitou linhas de 15 centímetros para não perder a janela e recusou o desconto para guardar os mapas. Os mapas que você guardou vão mostrar, por anos, as emendas dos três talhões plantados hoje.
  • Se você escolheu “Esperar a peça e plantar a partir de segunda” e “Voar agora, com gota grossa e uma faixa sem aplicar do lado do apiário”: Você esperou dois centímetros para plantar e voou com o vento subindo para aplicar. Na mesma sexta, a régua foi uma para a plantadeira e outra para o drone.

Como o dia termina

Você foi para o mapa primeiro.

Havia um drone carregado com o vento subindo, uma plantadeira parada e um produtor com um contrato na mesa, e você abriu o mapa de vigor do voo de ontem. Passou 1h20 comparando cada zona com ela mesma nas três safras anteriores.

Isso não é bom nem ruim. É informação: você começou pelo que só se vê de cima. Sensoriamento remoto é isso: a mancha mais clara do mapa quase nunca é o problema, e o problema quase nunca está onde alguém já está olhando.

Você foi para o drone primeiro.

Das quatro coisas, você escolheu a que dependia do vento. Passou 50 min no talhão 7 entre o anemômetro, a lagarta e as abelhas do vizinho.

Voar com drone na lavoura é isso: a decisão é tomada no campo, com o equipamento ligado, e o que sai do tanque nem sempre fica dentro da cerca.

Você foi para a plantadeira primeiro.

Você começou pelo barracão, onde uma máquina de precisão estava sem precisão. Passou 45 min decidindo quanto valem treze centímetros contra três dias de plantio.

Agricultura de precisão é isso: o sistema existe para tirar o erro da lavoura, e quando ele falha alguém precisa decidir quanto erro a lavoura aguenta.

Você foi para a proposta primeiro.

Você começou pela sala do produtor, onde os mapas que você faz tinham virado moeda. Passou 40 min decidindo com o Seu Valdir quanto vale saber, sozinho, quanto a própria fazenda colhe.

Agricultura de precisão é também isso: o dado da lavoura vale dinheiro para mais gente do que quem planta, e quem cuida dele precisa saber para quem ele trabalha.

As três portas da Agricultura de precisão

Agricultura de precisão não é uma profissão só, são três, e elas se separam pelo tipo de problema, não pela máquina.

  • Sensoriamento remoto. Ler a lavoura de cima, por satélite e drone, e achar o que mudou antes de alguém ver do chão.
  • Drone agrícola. Voar para mapear e para aplicar, com o vento, a lei e o vizinho do lado.
  • Agricultura de precisão. Fazer máquina, mapa e dado trabalharem juntos no talhão, e decidir o que fazer quando um deles falha.